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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Contributos para a História de Barrancos (XXI) - o mel

Publicamos hoje, com a autorização do seu autor, José Valério, o contributo XXI para a História de Barrancos, neste caso, sobre o Mel.
(...)

"Antes de me debruçar sobre o mel produzido em Barrancos, faço uma introdução, do que a história nos diz, sobre as abelhas melíferas (Ápis mellífera).

A função principal, ou mais explorada, delas é a polinização. O seu desempenho é terminante, visto ter-se descoberto que cerca de 2% das abelhas selvagens do planeta são responsável pela polinização de 80% das culturas mundial. Isto revela que sem abelhas não haveria frutos e vegetais, inseparáveis a alimentação do homem, herbívoro e carnívoros, destruindo a agricultura e a indústria. A importância para o ecossistema é notória: sem abelhas seria o fim. Toda a cadeia alimentar sofreria e os animais morreriam, (Fonte: National Geographic).

A formação do mel está relacionada com o processo de polinização das flores que proporcionam uma alteração aromática. Dentre os variadíssimos insetos atraídos, temos as abelhas, que sugam o néctar da flor. Durante o transporte, diversas secreções são acrescentadas ao néctar, depositando-o em favos onde perderá grande parte da sua água e se transformando em mel. Existem dezenas de variedades de mel, que se obtém, segundo a floração existente, num raio de ação de 3 Km de distância de suas colónias. O mel monofloral (de uma única flor), é considerado melhor e plurifloral (de várias flores). Muitas pessoas se interrogam quando vêm o mel cristalizado: Será bom ou mau? Especialistas afirmam que quando cristaliza, é a forma da sua qualidade e da sua pureza. É um importante complemento à alimentação humana. (Fonte: Wikipédia-Enciclopédia livre).

Desde tempos ancestrais, o mel foi utilizado como alimento pelo homem, obtido inicialmente de forma primitiva. Muitas vezes, de maneira danosa às colmeias feitas em troncos e ramos de árvores, rochas, paredes, buracos no solo, etc. Porém, muito deste mel não era aproveitado pelo homem. Com o correr dos séculos, aprendeu a capturar enxames e colocá-los em colmeias artificiais. Com o desenvolvimento das técnicas que através do tempo foi inventando, conseguiu aumentar a produção e extraí-lo sem danificar a colmeia.

Além do mel, podem obter-se diversos produtos: pólen apícola; pão de abelha; própolis; geleia real e cera. No uso medicinal sempre foi reconhecido devido às suas propriedades terapêuticas. Além do alto valor energético, é um alimento rico em substâncias benéficas ao equilíbrio do nosso organismo, como: vitaminas, minerais e aminoácidos. A própolis é um produto com fortes propriedades de cicatrização de feridas e efeitos: antibacterianos; anti-inflamatórios; antifúngicos e antivirais. Também usada na fabricação de cremes, pomadas e cosméticos, bebidas (ex. hidromel). As abelhas melíferas vivem socialmente em colónias, organizadas em colmeias, existindo apenas uma rainha, única fêmea fértil, (fecundada por zangões) responsáveis pela postura dos ovos. As restantes são operárias, fêmeas inférteis responsável por todo o trabalho da colmeia. Têm uma esperança de vida de vários anos. São dos insetos mais sensíveis às alterações climáticas.

Há uma grande preocupação com a diminuição das populações, principalmente na Europa e América. Razões para esta quebra incluem: agricultura intensiva, uso de pesticidas, poluição, doenças, varroas e outros ácaros que as definham, uso de culturas geneticamente modificadas e extensas áreas de cultivo de uma única cultura,  vespas asiáticas, grandes predadoras, o ratel (texugo-do-mel) e aves, como os abelharucos (Fonte: National Geographic).

Para os nativos das Américas, o mel e a cera produzida pelas abelhas sempre foram de extrema importância. O mel era consumido ao natural ou para adoçar outros alimentos. A cera era usada na vedação de utensílios como: cola, polimento, lubrificação de artefactos e na iluminação.  

Chegado aqui, cabe-me relatar algo do que foi ─ e é ─ em Barrancos a apicultura. Esta atividade remonta a milhares de anos. As colmeias: normalmente usam-se as colmeias tradicionais e as caixas. Ambas feitas pelo homem, mas a tradicional é totalmente artesanal sem espaço padronizado ─ o cortiço  − como o nome indica, feito de cortiça, com formatação cilíndrica. No interior existe as trancas ou cruzetas (varas de estevas, normalmente duas ou tês, que suportam o peso dos favos carregados de mel) Ainda hoje utilizado por muitos apicultores. Sendo a função do apicultor cuidar bem da colmeia (para que esteja sempre saudável e produtiva), desenvolveu as caixas, mais modernas, a partir de pesquisas cientificas, para melhorar as condições das abelhas e da produção. Outras formas existiam em outros locais.

Em tempos remotos, Barrancos tinha muita gente que vivia no campo: pastores e trabalhadores em outros fins, etc. Na Primavera, época da saída dos enxames de vários apiários, muita desta gente capturava-os conseguindo formar uma ou várias colmeias e, chegado o tempo, extraíam o apreciado néctar para todo o ano. Outros, vivendo na vila, também apanhavam os enxames tresmalhado pondo-os em cortiços ou caixas na periferia da vila ou em apiários já existente. Pequenos agricultores possuíam apiários com bastantes colmeias em cortiço, o mais usado até o aparecimento das caixas em madeira. Os falecidos: padre Agostinho Antunes dos Santos e José Leal Pinto (grandes apicultores na década de 1950 ou 60), padronizaram este sistema, mais produtivo, dando azo a que outros apicultores seguissem o mesmo caminho, até aos nossos dias. Há no tempo que corre, muito mais interesse na incrementação desta atividade, economicamente mais rentável, que naquela época. Todavia, que se saiba não existe nenhum apicultor em Barrancos que extraia outros produtos  acima citados, a não ser o mel. Nem existe a pratica da transumância ou apicultura migratória (deslocamento das colmeias de um local para outro distante, durante a floração). No fim retiram-nas para o local de origem ou para outro local.

Chegada a época da colheita, estes apicultores, não profissionais, deparavam muitas vezes com uma safra que as abelhas produziam em quantidade excedente, considerando o consumo anual familiar. Que fazer com o remanescente? Era vendido através de comerciantes que se deslocavam e deslocam para Barrancos na compra do apetitoso néctar. Uma forma de arrecadar uns tortões para adicionar ao magro orçamento familiar. Porém, há alguns apicultores que o vendem em frascos de meio quilo ou quilo.

Pergunta dos leitores menos esclarecidos: como é extraído o mel?

1 ─ Os favos no cortiço eram e são tirados e espremido à mão, obtendo-se o mel e a cera. A cera deixada da espremedura era fervida em água obtendo-se a água-mel, muito apreciada na nossa terra. A espuma resultante dessa fervedura era utilizada por muita gente na alimentação, untando-a no pão. Esta operação era muito trabalhosa e dispendiosa com o consumo de lenha ou gás. A cera não utilizada com este fim era tratada e prensada em finas folhas que, através de máquina especializada, são gravados hexágonos onde as abelhas constroem os alvéolos usados para reprodução ou para depositar o mel. Esta cera é colada aos arames existente nos quadros novos, através de um dispositivo aquecido. Ou comercializada. Tem variadíssima aplicações.

2 − Os quadros tirados das caixas, que se encontram em cima do ninho (colmeia), são colocados num extrator manual ou centrifugadora elétrica. Extraído o mel, ficam os quadros apenas com a cera que será reposta na caixa, e colocada novamente na colmeia. Esta cera e a dos novos quadros é trabalhada pelos laboriosos insetos, formando os alvéolos, como atrás se diz, para reprodução ou armazenamento do mel. Nos dias de hoje existem equipamentos mais sofisticado que, julgo, em Barrancos não os há.

Toda esta atividade é feita com vestuário especifico acompanhado do fumigador, fole (dispositivo com função de produzir fumaça para evitar picadas das abelhas).

Terminada a safra, o belíssimo néctar produzido em Barrancos, está disponível para ser consumido e comercializado pelos apicultores.

Barrancos, 25 de Outubro de 2021
Ass) José Peres Valério"
Fotos: Wikipédia, a enciclopédia livre, visualizadas em 15/10/2021, 
por José Peres Valério

sábado, 18 de setembro de 2021

Contributos para a História de Barrancos XX – Forma de aquecimento em tempos idos

Mais um contributo (XX) para a história de Barrancos, de José Peres Valérioque o eB publica, abaixo, com a cortesia do seu autor:

"Descobri, arrumando a minha papelada, um jornalzinho com o título PICON DE ENCINA (Picão de Azinheira) que se publicava, (e se publica?) na década de 90 do Séc. transato, na nossa vizinha Encinasola - Espanha. Achei o título curioso, despertando-me a atenção. Pensei: o que este bem deu na nossa terra! Abri a imaginação. Comecei a escrever.

Quando escrevo, sobre a história de Barrancos, faço-o, geralmente, para descrever circunstâncias vividas pelos nossos antepassados, em épocas idas. Julgo necessário não esquecer mais este, relato verídico, sentido na pele por gente que viveu os tempos.

Vida dura e hostil! Tempos amargos! Tempos de miséria! Os trabalhadores, com parcos recursos, “não arredaram pé a sacrifícios”, a fim de acarearem meios que pudessem ajudar e alimentar a família, proporcionando-lhe  bem estar. Daí deitarem mãos a tudo que desse uns tostões. Estas pessoas, sem trabalho, sem subsídios: de desemprego, abonos de família, doença, etc., tinham que inventar maneiras para poderem ganhar algumas migalhas.  

Quem me lê, interroga-se: Porquê este contributo? Simples, diria  eu.  

 Antes do aparecimento das braseiras elétricas e outros aquecimentos elétricos, havia uma actividade que era ganha-pão de muitos durante o Inverno e Primavera.

 Qual? − A poda do azinhal, conhecido pelo povo como os cortes. Em algumas herdades, os ramos de árvores, depois de chapoteados (chapotados), eram transformado em picão. A transformação era feita no campo. Juntavam-se grandes quantidades de ramos de azinheira ou estevas, já citados, ateando fogo ao monte até atingir o rubro. Seguidamente, com uma forquilha ia-se dando volta e molhando, à mão ou regador, simultaneamente, até ficar em carvão (picão). Exigia muito cuidado, não fosse o picão ficar em cinza. E não se podia deitar água a mais, para que ardesse melhor. Depois, deixava-se arrefecer  e  ensacava-se, para ser utilizado e vendido. Posto na braseira, era acendido com brasas do lume, que certas pessoas tinham na lareira; ou com petróleo, pontas de chamiços, etc. requerem muito cuidado devido à libertação de monóxido de carbono. Muitos casos de morte se têm registado no país por falta de prudência.

Esta fonte de aquecimento era usada  na camilha, onde era colocada. Nos dias muito frios de Inverno, as pessoas passavam muito tempo sentadas à braseira, sobretudo ao serão. Nas Sociedades dos “pobres” e dos “ricos”, havia seis ou sete acendidas diariamente para aquecimento dos sócios, assim como nas tabernas.

Também de esteva seca, melhor do que aquele, se fazia. O inconveniente que  tinha, era arrancá-las a braços. − São de enaltecer as variadíssimas aplicações que a sua resina (ládano) possui: das propriedades medicinais (poderoso antissético, antibacteriano e antiviral), até aos perfumes e tinturaria−. As pessoas que tinham padarias ou fornos em casa usavam-na como fonte de calor na cozedura do pão. Quente o forno, era varrido metendo-se  as brasas em recipientes e tapando-os até arrefecerem.

A grande maioria das casas  possuía lareira. Faziam lume, aqueles que podiam, não só para aquecimento como também para cozinhar legumes, carnes ou outros. Fogão a gaz não havia por aqui. Famílias mais indigentes,  sem meios  para comprarem lenha e fazerem lume, para confecionarem os alimentos, pediam umas brasas às vizinhas que as tinham. Estas, com sentimento altruísta não só lhes davam uma ferrada de brasas como também feixes de chamiços ou estevas. Outros pediam o animal emprestado, normalmente o burro, para trazer xaras dos terrenos baldios ou outros locais.  E assim iam vivendo até chegar o tempo quente.

Existia espírito solidário, apesar da pobreza. Mas nem todos os trabalhadores passavam por esta situação: havia os que trabalhavam todo o ano com os lavradores, e no período dos cortes traziam cargas de lenha, no asno, quando vinham a casa, para descansarem no Domingo. Além destes, havia outros trabalhadores sazonais para os cortes, ocupados em herdades menos extensivas, que também traziam o apetecido combustível.  

Porém, a grande maioria dos trabalhadores não possuía terrenos que tivessem azinhal ou outras variedades de plantas, capazes de produzir aquele material.

Questiona-se: − Então, como conseguiam adquirir essa matéria-prima, tão desejada?

− Os proprietários do grande latifúndio, e outros, possuidores de grandes superfícies de azinhal, cortavam as azinheiras secas, ou não, para seu consumo. O tronco deixado, era dado a quem o pedisse: ao  guarda ou feitor da propriedade. Por norma o pedido era aceite.

Os citados muniam-se de marra, cunhas e alvião, espatifando o tronco e arrancando as raízes das entranhas da terra e levar a carga de lenha para casa ou vendê-la. Bastante falta faziam os magros tostões, conseguida através de grande dispêndio e energia que estas pessoas libertavam com este duro trabalho. Outras vezes, com trabalho menos duro, acarretavam estevas secas ou chamiços. Mas nem sempre tinham a sorte de chegar a casa com a lenha.

Certo dia, fins da década de 1950, um individuo depois de farto de trabalhar, para fazer a carga de lenha, já apalavrada para venda, foi interceptado pela patrulha da GNR à entrada da vila:

− De onde traz a lenha?  E o documento de autorização?

− Trago-a de uma propriedade particular, com ordem do guarda do terreno que tinha à sua posse. − Como o guarda da propriedade não sabia escrever, não o passou. Tudo foi tratado verbalmente, como era hábito.

Ato continuo, a guarda mandou entregar a lenha na União de Caridade das Senhoras de Barrancos (Sopa dos Pobres), sita na Rua 1º. de Dezembro nº. 66, hoje extinta, alegando estar em transgressão à norma praticada. E assim, o pobre com a esperança de receber uns tostões para a compra do pão, viu-se de mãos a abanar. Outros tempos… tempos ditatoriais!

Algumas desta gente, também fazia carvão de raízes do breço (nome conhecido em Barrancos), ou seja: urze ou torga. No interior do país, essa planta era usada com variados fins, como vassouras ou escovas artesanais. Entre nós, o carvão de breço foi muito utilizado nas forjas até ao aparecimento do carvão de pedra ou mineral. Na Herdade da Contenda, sítio das cortes, abundavam as urzes.

Curiosidade: o médico, poeta e grande escritor Miguel Torga foi um grande apaixonado pelas urzes. Utilizou este pseudónimo (Torga) em homenagem a esta planta, que existia em grande quantidade na sua terra natal, S. Martinho de Anta, Vila Real. Junto a sepultura, em campa rasa, foi plantada a seu lado uma torga ou urze, em honra ao poeta.

E como já vemos uma luz de esperança no fundo do túnel, com o desvanecer da pandemia, conforme o coordenador da “task-force” ter assumido que Portugal “já ganhou a este vírus”, nunca é de mais desejar que desapareça definitivamente e o mundo regresse à sua normalidade.

Barrancos, 15/09/2021 - Ass) José Peres Valério"

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Contributos para a História de Barrancos (XIX) – a Fêra II

No ano em que Barrancos não terá a sua tradicional fêra, pelo segundo ano consecutivo, vale a pena conhecer o contributo histórico sobre a "Fêra de Barrancos", da autoria de José Peres Valério, publicado ontem no seu perfil facebook, que o eB aqui partilha, pelo seu relevante interesse para o conhecimento da história da nossa Fêra:
(..)
"No passado dia 13 de Maio escrevi o texto sobre a Fêra em Barrancos. “Citei que, não era fácil escrever sobre a Fêra se observarmos a diversidade de acontecimentos que se arrasta desde o seu início”. Todavia achei por bem dar continuidade em alguma coisa que julgo ser útil.

A tabela abaixo mostra como evoluiu o número de habitantes em Barrancos de 1878 a 2017. Como se demonstra, houve um aumento acentuado até 1950 entrando em queda até 1970 e seguintes.

Ano

População

(Habitantes)

   1878

   1950

   1970      

        2386

        3624

        2610

(Fonte: Censos; Anuário Estatístico da Região Alentejo 2017)

Vêm estes dados a propósito dos barranquenhos que viviam dia-a-dia em Barrancos, diretamente ligados à fêra. Esta era do povo e mais ninguém, salvo alguns vizinhos, de aldeias mais próximas Portugal e Espanha, que se deslocavam a assistir a este evento. Porém, o êxodo verificado em fins da década de 1950 principio de 1960, citado no contributo XVIII, ditou a saída de um número bastante acentuado de pessoas da nossa terra, que voltava anualmente para assistir à Fêra. A maioria dos aficionados do mundo do touro, de outras paragens, não participava por não possuir meios de transporte, nem capacidade económica, face a pobreza, que se fazia sentir em todo o país. 

Era uma festa discreta. Só a partir de fins de 1960 começa a haver notícias na imprensa, pela pior circunstância. Todavia, o barranquenho sem esquecer as suas raízes, com o sentimento que se apoderava dele nesta altura, deslocava-se como podia e estava presente na sua/nossa Fêra.  

Como já narrei em outros artigos, a vida naquela altura não era fácil. Os únicos dias de diversão que o ser humano tinha nesta terra  eram: a Fêra (a mais vivida) ; o Natal; o Carnaval; Páscoa; Romaria de Flores e pouco mais, para expressar o desejo que lhe ia na alma. Sim, porque tinha que passar um ano entre as Fêras para poder satisfazer o apetite  acumulado, fazendo esquecer por um lapso de tempo, as agruras da vida passadas durante esse ano.

Para celebrar o dia 28 de Agosto, idosos, menos idosos e juventude, de entre os mais desfavorecidos, iam fazendo um mealheiro no decorrer do ano para, chegado este dia, se poderem apresentar condignamente  vestidos com indumentária  nova à semelhança dos mais abastados. Como os tempos eram difíceis, sem trabalho,  deitavam mãos a tudo que pudesse dar uns tostões para confraternizar com familiares e amigos nos quatro dias citados. O período que antecedia a Fêra (meses de Julho e Agosto), o alfaiate, Tio João Tereno, (residente na Praça do Município), suas aprendizas e costureiras (aproximadamente 15), trabalhavam numa azafama constante ─ muitos dias até à meia-noite ─, para poderem ter pronta as encomendas que os clientes faziam. Estas trabalhadoras, aprendizas, não tinham vencimentos. Era o que se  praticava na aprendizagem de qualquer oficio. As costureiras ganhavam cinco escudos por cada calça feita. Outras faziam estes trabalhos por conta própria. Contudo, no pouco que havia para ver, mas muito para aquele tempo, o povo expressava os seus anseios para os dias que se avizinhavam. Nestes dias, o sossego não pairava na mente dos jovens nem na de muitos dos mais idosos. Eram touros, bailes, confraternização entre familiares e amigos com uns copos à mistura… dias após dias até o final das festas. O barranquenho ausente, com a  hospitalidade que o distingue, trazia amigos e companheiros de trabalho  de outras paragens onde ganhava a vida. Para esses foram dias  inesquecível. Quando partiam, já desejavam que o tempo fosse breve para voltarem a estar presentes neste lugar acolhedor. Eram  dias sem ir à cama, imbuídos na farra com que carateriza a nossa Fêra, da hora do encerro, passando pelas corridas de touros e bailes, até ao dia seguinte.  

Todavia, há pormenores que não se esquecem e nos remetem para aqueles tempos nostálgicos. Quando as touradas terminavam, o povo tinha um único caminho a seguir: o do Alto Sano. Sítio onde estavam centralizados os carroceis, circo, barracas: de bugigangas, fotografias,  comes e bebes. De manhã, Tia Brizida vendia os heringo na Praça do Município, que neste momento está-me a chegar o cheiro agradável daqueles fritos! (cheiros de fêra!). ─ Só que, infelizmente com este inimigo camuflado, mais um ano ficamos sem  o cheiro agradável ─. Também na Praça do Município os irmãos Perez vendiam torrão, barquilhos, suspiros,  grão torrado etc., muito apreciado pela população. Durante o ano vendiam em casa e pelas ruas.

As crianças, ao verem as barracas cheias de brinquedos, de vários géneros, entravam em êxtase pedindo aos pais que lhes comprassem um. Numa barraca, uma criança chorava porque queria um brinquedo. A mãe, com pena, lhe dizia: amanhã o compro. Mas, doendo-lhe na alma, por ver o filho carpir daquela maneira, meteu a mão no bolso e tirou um saquinho de pano onde trazia os magros tostões. Deitou contas à vida ─ não chegava para adquirir alguns alimentos que tinha em mente ─ mas resolveu  comprar-lhe um dos mais barato: uma roda em madeira, com um boneco a pedalar. Uma chapa sonorizava o brinquedo enquanto a criança o empurrava. Deu-lhe uma alegria esfusiante, aquele mimo da mãe. Noutro lado, certamente, ficou a falta! Os pais dos mais abastados compravam outros brinquedos  mais caros.

A Rua de S. Sebastião ─ da Praça do Município ao Alto Sano ─, àquela hora, era um mar de gente. As tabernas de Tio Zé Burgos, Tio João Laranjinha e, no largo, Tia Vitória, atenuavam o calor abrasador vivido durante as touradas, com bebidas (a temperatura  natural, pois não tinham frigorífico nas décadas de 1950/60). Era um alívio para os mais ávidos, mesmo sem estarem frescas.

Entretanto, Tio Zé Luís Alcario percorria a praça com umas grades de pirolito, gasosas, laranjadas, etc. vendendo e matando a sede aos mais aflitos. Em anos mais recuado, Tio Minhique (alcunha) transitava pela praça cedendo, ─ por umas dezenas de centavos ─, um quartilho de água e assim arrecadavam uns tostões para fazer face ao orçamento familiar.

Porém, à parte da história narrada, aproveito para expor o seguinte:

Nos dias de hoje, nada do que se passava no largo existe. Não temos um só espaço para todas essas diversões, incluindo barracas de comes e bebes, que estão dispersas. Uma barraca de bijutarias na rua próximo ao mercado, outra na estrada junto ao jardim público, outra em Montes Claros, etc. Os investidores, por muita vontade que tenham em vir dinamizar a nossa Fêra e fazerem o seu negócio, podem  perder o desejo à nascença.

Como as autárquicas estão ao virar da esquina, daqui faço um apelo à futura Câmara, se julgar por bem: criar condições para que esta lacuna seja  colmatada para o bem  da festa e de Barrancos.

Gostaria de terminar esta descrição com o desejo de uma Fêra bem passada e cheia de diversões. Mas a peste, que teima em massacrar-nos, não nos permite, mais uma vez, gozar esta festa que herdamos de nossos antepassados.

Barrancos, 16/7/2021 - ass)  José Peres Valério

(imagens JPV)

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Contributo para a História de Barrancos (XVII) – O mercado de abastecimento público

Publicamos hoje, o XVII, "contributo" de José Peres Valério, desta vez sobre o mercado, as feiras, e seus protagonistas: vendedores:

"Antes de 1972 o mercado de abastecimento público teve a sua iniciação na Praça do Município, passando mais tarde para o Largo de S. Sebastião, mais conhecido por Alto Sano, até à data da inauguração do atual. Toda a venda era feita a céu aberto.
A comercialização dos géneros alimentícios era muito diversificada. Além do mercado, vendia-se carne de matanças de porco em casas (com, ou sem mercearias), pelas ruas, etc..
Mas, passo a enumerar por espécies:
1 – Carnes:
Os talhantes tinham bancas de madeira com proteção, também em madeira, para evitar as intempéries com que frequentemente deparavam (chuva, sol, ventos). Os proprietários, que recorde, eram: Tio Manuel Durão e seus filhos, Manuel e Glória; Tio Manuel Luciano; Tio Domingos Burgos e Chico Florido.
Em dada altura, Tio Manuel Durão desistiu do mercado e passou a exercer a atividade no talho, sito na Rua 1º. de Dezembro, hoje nº. 31. Também seu filho Constantino vendeu no talho localizado na Rua das Forças Armadas, hoje nº. 42. Outros houve, antes destes, que desconheço devido ao distanciamento temporal.
No matadouro, sito no Poço Novo, (com o abastecimento de água do mesmo poço), os magarefes faziam os abates dos animais: ovinos; caprinos; suínos; vacum ─ quando uma vaca partia uma pata. As carnes daqueles animais não estavam ao alcance da maioria da população, pobre, que vivia de salários baixíssimos, quando ganhavam. A exceção económica era o celebre mondongo (rebortilho, morcilha de lustre e patas de borrego ou chibo), que os talhantes desenvolviam com grande maestria. Era um prato divinal cozido com batatas, assim como os ossos do porco, consumido até hoje. Mais económico para o alcance das bolsas. Estas pessoas compravam uma quarta de carne, (125gr.), de vez em quando, para uma família de três ou quatro pessoas.
Como a maior parte das casas tinha um quintal, ainda que pequeno, muitas pessoas criavam galinhas, coelhos, etc. Era a forma de comerem carne com mais frequência. Daí recorrerem ao peixe. A inspeção das carnes e do peixe era feita pelo médico veterinário municipal, Dr. Vasconcelos, mais tarde substituído pelo Dr. Alberto. Na falta destes, era o filho da terra, delegado de saúde, Dr. António Pelicano Fernandes que desempenhava aquelas funções. As matanças caseiras, para consumo familiar, eram inspecionadas normalmente pelo delegado. As pessoas levavam 4 ou 5 amostras de carne de porco (a mais frequente) a casa do doutor.
2 – Peixe:
A venda de peixe mais comum, face à acessibilidade da população, era feita em cima de estrados de madeira sem qualquer guarnição.
O pescado era a base de alimentação desta gente. Por ser mais barato, recorria-se a este bem, que em quantidade (para um agregado familiar de 5 ou 6 pessoas) se tornava muito económico. Os peixeiros recebiam o pescado diretamente da lota através dos seus fornecedores. Peixe sempre fresco, salvo um ou outro caso. Congelado não existia. Com a chegada ao mercado, diariamente, por volta das 8/9 horas apregoavam o peixe que traziam e respetivo preço. Às vezes, faziam concorrência com despique entre si, baixando os preços para valores que a população aproveitava, com agrado. Nesses despiques chegavam a vender carapaus (joaquinzinhos) e sardinhas (pequeninas) a cinco tostões (50 centavos) o quarteirão e por um cento, que não chegavam a contar, aviando à mão cheia. O carapau do alto, por norma, era vendido a oito tostões cada, ou 2 por 15 tostões. A sardinha e o carapau, pequeno/médio e do alto, predominavam. Do peixe gordo, existiam várias qualidades. Para os mais desfavorecidos, apenas era alcançável o cação. Era um peixe só consumido pelos pobres. Hoje, como sabemos, apreciado por todas as classes sociais.
Os peixeiros daquele tempo eram: o Sr. João do peixe, de Safara, que tinha um empregado o Sr. Augusto; Tio António Torrado, mais conhecido por Tio António Porquério; João Pica, conhecido por João Cação e esporadicamente um ou outro que apareciam.
Terminada a venda no mercado, ao meio dia, cada um regressava aos seus destinos. Uns lamentando-se da fraca venda, outros nem tanto.
Entretanto, pela tarde o Tio Xico Narra que trabalhava também para o João do peixe, mais tarde de conta própria, apanhava na sua canastra e, pelas ruas, ao som de uma gaita, vendia peixe que tinha sobrado do mercado.
3 – Fruta e hortaliça:
A fruta era vendida apenas na correspondente época. Quando as plantas frutíferas davam e as condições climáticas eram favoráveis. A fruta de regadio, que imperava no verão era o melão e melancia, vinda da Amareleja em carros de tração animal que percorriam 25 quilómetros. Também se vendiam figos, uvas e figos passados. Havia dias em que se juntavam 10 ou 12 carros cheios. Os proprietários, chegados tarde a Barrancos, pernoitavam na estalagem, do Largo de S. Sebastião (Mercado), propriedade de Tia Maria Mendes, para no dia seguinte exporem os produtos à venda. Alguns faziam a sua venda pelas ruas, com os carros puxados por animais.
A hortaliça era vendida no mercado pelo Tio António Porquério e pela esposa de tio Chico Narra. Os familiares deste deslocavam-se com o burro à herdade das mercês (em Barrancos) para carregar a hortaliça que vendiam na praça. Além do mercado, também se vendiam frutas e hortaliças diretamente das hortas. Tudo produtos da época. Existiam vendedores que possuíam um bocado de terra aproveitando-a para semear algumas variedades de hortaliça que se deslocavam pelas ruas a vendê-las de porta em porta. Estou a lembrar-me de Tio Francisco Lopes Côco, mais conhecido por Tio Côco com o seu burro, vendendo: espinafres, alfaces, rabanetes, couves, repolho, tomates, coentros, salsa, etc., apregoando: la buena ehpinaca, lechuga, rabaneta, colantro. Eram tempos em que as pessoas, para sobreviver, deitavam mãos a tudo que desse uns tostões. Alguns pequenos lavradores, possuidores de boas terras para sementeiras de hortaliça, sem oportunidade de vender nas ruas, pediam a alguns pais que as suas crianças (poucas) vendessem as hortaliças e frutas pelas ruas a troco de…? Como a necessidade era grande, lá iam as crianças desempenhar essas funções.
Entretanto, havia décadas que a população ansiava por um mercado coberto, à semelhança de outras povoações, a fim de evitar os temporais que assolavam para comprar os seus haveres. Até que alguém se lembrou de lançar mãos à obra e construiu-se o tão almejado lugar.
Com a inauguração do novo mercado, significativo investimento público para o bem da comunidade, onde hoje se encontra, tudo mudou. As instalações, com condições higieno-sanitárias, bancas convenientemente apetrechadas para todas as atividades atrás citadas, puderam albergar muitíssimas pessoas num espaço amplo, evitando as agruras que passaram à chuva, vento, frio e calor. Todavia com a evolução do tempo houve muitas transformações socioeconómicas. Posto isto, nos dias de hoje, os talhos que existiam no 1.º andar foram fechados e o espaço transformado, para outras atividades, ficando apenas as bancas do rés-do-chão. Finalmente, é de salientar que o Largo de S. Sebastião poder-se-ia considerar espaço multiuso. Não só porque servia para o mercado de abastecimento como também para espaço lúdico, nomeadamente na fêra, com o aparecimento de diversos divertimentos, tais como: carrocéis; circo; barracas de quinquilharia; de fotografias com máquinas de caixote; de tiro; restauração; heringo (Tia Brizida na porta da sua residência e na praça pequena). Também houve barracas de ouro que se instalavam na praça pequena (Praça do Município).
Outros tempos!
Para os do tempo, recordarem.
Para os do tempo atual, conhecerem.

Barrancos, 18/04/2021
ass) José Peres Valério"
pormenor do mercado no Altossano
Mercado Público, atual
(Fotos: retiradas do perfil facebook José Peres Valério)

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Contributo para a História de Barrancos (XVI) - o saneamento básico

Mais um contributo (XVI) para a história de Barrancos, de José Peres Valérioque o eB publica, abaixo, com a autorização/cortesia do seu autor:

"Citando Jaime Salter, escritor: A vida passa e o homem olha para ela reconstruindo-a com a memória.

Tomando esta frase, passo a descrever mais um contributo, que me vem à memória, desta vez sobre salubridade pública.

O saneamento básico está relacionado com a prevenção e controlo de doenças transmissíveis, diretamente confrontado com os elementos básicos (ar, água, alimentos, etc.); qualidade do que é saudável e higiénico; conjunto das condições favoráveis à saúde.

Não é fácil, nos tempos que correm, alguém (chegado exausto a casa, depois de um dia de trabalho) imaginar querer tomar um duche ─ ou defecar ─ e não ter instalações sanitárias para o fazer. Dir-se-ia: nem passa pela cabeça dos mais distraídos. Porém, este martírio aconteceu. Nem sempre houve essa regalia na nossa terra, bem como nas províncias deste país,  à exceção das grandes cidades, que cedo possuíram este bem.

Em Barrancos até à década de 1960 inclusive, pouco ou nada se respeitou aquele princípio, pelo então Estado Novo. Senão vejamos: para melhor entendimento dividi os habitantes em três classes sociais.

1  - os abastados, grandes senhorios com “palácios” e latifúndios;~
2 - os menos abastados (pequenos agricultores) que possuíam o minifúndio, vivendo da exploração das terras, e os comerciantes;
3 - a pobreza grosso da população, que nada tinha e trabalhava para os primeiros e, às vezes, para os segundos.

Os primeiros desfrutavam de condições sanitárias suficientes para possuírem casas de banho com banheira ou chuveiro, com água acarretada pelos criados. Algumas das casas dos segundos, tinham também condições, mas, nem todos tinham casa de banho. E os pobres, nada tinham. Uns pela exiguidade da habitação. Outros por força das condições do terreno eram impedidos de ter os esgotos ligados à diminuta rede de escoamento existente na vila. A higiene, a que qualquer ser humano tem direito, não estava acessível a todos. Algumas casas, poucas, tinham atrás da porta de entrada um cano que era ligado a uma fossa séptica (a maioria nem sabia o que era) que algum vizinho, dono de curral confinante à casa, autorizava a ligação. A população pobre, (face às dificuldades com que deparava, com os parcos soldos que usufruía, quando usufruía) não possuía dinheiro para se poder ligar ao sistema público. Sem esgotos, não tinham outros meios senão utilizarem bacios ou latas para defecar e outras necessidades. Banhos, utilizavam uma paneira (recipiente em zinco) ou alguidar e aí faziam a sua higiene, porque água canalizada, nem sonhar. Mas, pergunta-se: Onde depositavam as pessoas os dejetos? Pergunta pertinente. Resposta difícil.

Na periferia da vila, muito próximo das habitações. Algumas ruas com casas de um lado e lixeira do outro. Existiam estrumeiras a céu aberto que recebiam todos os excrementos (humanos e de outros animais) e lixos de toda a natureza. Expostas a contaminações de toda a espécie sem que houvesse solução para a eliminação deste mal. Como os animais de carga (cavalar, muar e asinino) predominando os últimos, as ruas eram varridas por gente que apanhava o estrume dos animais que defecavam, no trajeto de e para as casas, ficando as ruas limpas sem qualquer custo para o erário público. Para a deposição deste estrume, estas pessoas tinham estrumeiras fora da vila que vendiam na época da fertilização das terras.

Entretanto, nas casas exíguas e nalgumas dos menos abastados, também existiam cabanas para os animais citados. Utilizavam a porta principal em virtude de não possuírem saídas para outras ruas que dessem acesso aos quintais, logo, às cabanas. Pela única porta, entravam e saiam. Além de os animais, as brasinas (género de alcofa em malha de cordel) com palha; lenha; fenos para alimentação dos animais; estrume; etc. tudo passava pelo corredor da casa.

Casas havia, dos mais desfavorecidos, que tinham galinhas para alimentação da família, que andavam todo o dia na rua. Bicando aqui e ali até à tardinha que se recolhiam no quintal ou cabana.

Felizmente hoje temos todas as condições de salubridade pública necessárias, ainda que, como consta nos censos de 2001, houvesse 20 alojamentos sem retrete e 98 sem banho ou duche. Pelo feito, congratulamo-nos com este bem e com a água canalizada, que o 25 de Abril de 1974 nos trouxe. Sim, porque foi após o advento desta data que as Câmaras começam a receber transferências da Administração Central para obras destinadas à salubridade pública.

Sem saudosismo, considero ser de alguma importância citar: olhar o presente, pensando no futuro sem esquecer o passado.

Barrancos, 28/02/2021 – ass) José Peres Valério"

Remodelação das condutas de água de Barrancos
Foto: Arquivo, eB)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Contributos para a História de Barrancos XIII – A pesca nas águas interiores *

Mais um contributo (XIII) para a história de Barrancos, de José Peres Valério, que o eB publica, abaixo, com a autorização/cortesia do seu autor:

"Com a narração que se segue tento passar uma pequena descrição do que foi, e é, a pesca nas águas interiores, em Barrancos.

Assim, todos sabemos o que é a pesca, mas nem todos sabemos o significado que teve e tem para a humanidade desde os primórdios dos tempos. Desde que há memória, a pesca sempre fez parte das culturas humanas, fonte de alimento, mas também do  modo de vida. É um recurso que satisfaz, não só as necessidades de alimentação do homem como também as necessidades de lazer e de recreio sendo, neste capítulo, um dos mais notáveis de todos os desportos. Leva-nos para junto da natureza proporcionando horas de grande regozijo. Ela é a captura de animais aquáticos destinados a diversos fins: subsistência, (continua a ser muito importante em todo o mundo); pesca desportiva, como atrás se diz;  negócio; fabrico de rações  para o alimento de animais; produção de substâncias com interesse para a saúde, com apreensão, feita nos mares, como por exemplo: (óleo do fígado de bacalhau, muito utilizado em tempos idos), etc…

Entretanto o homem, com a sua astúcia, inventa os utensílios necessários para rentabilizar e captar cada vez mais quantidade de peixes, aperfeiçoando-se paulatinamente com o decorrer do tempo até aos nossos dias. Hoje com materiais muito sofisticados, existe uma grande concorrência no domínio da competição à linha. Outrora a pesca com linha e anzol foi uma das principais formas de aprisionar os peixes. Esta técnica é utilizada há milhões de anos. Como se depreende, há muitas formas de pescar: desde as embarcações; passando pelo tresmalho (rede retangular); tarrafa (rede circular); até à linha, acima citada. Outras formas existem como: linha-de-mão; com mosca; rede emalhar; ao fundo; etc…

Aqui chegado, importa relatar um pouco a vida piscatória que foi, em tempos idos e  atualmente em Barrancos.

Até as décadas de 60 do Século XX, como a pobreza teimava em se apoderar dos pobres, tornando-os cada vez mais paupérrimos, as grandes dificuldades havidas em adquirir trabalho, sem quaisquer meios para o sustento do agregado, (subsídios do Estado, nem falar),  houve alguns trabalhadores, chefes de família, que, para ganharem o pão de cada dia, se dedicavam, entre outros, a capturar peixes para vender, pelas ruas e na praça, sobretudo, das ribeiras do Murtega e Ardila. O barbo, bogas, escalo (bordalo), pardelha, eram os peixes, mais apetecido pela população. A carpa, predominando, a grande maioria das pessoas abdicavam delas. Os apetrechos que utilizavam eram primitivos como: tresmalho ou tarrafa. Havia tio José e irmão António d’Abrio mais conhecido por António Organisto; tio António Calhaco e filho, André e Tio Zé Sardinheiro, que abraçaram esta atividade, com muita frequência, havendo, no entanto, outros que esporadicamente também a praticavam.  

No que ao lazer diz respeito, muitas pessoas, nomeadamente os artífices, com empregos na vila, mais necessitados de respirar ar campestre, chegado o fim de semana, na Primavera ou Verão, apanhavam: nos burrinhos, quem os tinha ─ sim, porque carros e motorizadas só mais tarde, dando lugar aos jumentos ─; nas canas de pesca, alguns. Porque a maioria eram apanhadas nas margens da Ribeira ou Arroio e aí vão eles caminho do  Ardila e Murtega uns, e Arroio outros. Sem esquecer os farnéis, porque, às vezes, em vez de apanharem peixes apanhavam um “Chibato/Grade”, ou cágados. Iam sempre com a esperança de agarrar uns barbos, bogas ou pardelha, o que viesse. Feita a pescaria, que desta vez foi boa, são horas de fazer e comer as sopas de peixe (ótimas na ribeira!). Dias de convívio salutar. E assim passaram fins de semanas, meses e até anos. Parcerias que ao longo do  tempo mantinham uma amizade saudável.

Mas, curiosamente e de tantos amantes da pesca existentes, nenhum se empenhou em formar um Clube de Pesca, proporcionando aos associados momentos de lazer e pesca lúdica. Criando-o, havia condições  para competir entre eles e outros Clubes da Região, já existentes, como por exemplo: Moura, Reguengos e outros, projetando esta atividade em particular e o nome de Barrancos em geral, por outros lugares do mundo.

Porém, o tempo passa, porque não para, e eis que em 1985 um punhado de admiradores da pesca desportiva, já identificados no Contributo do Desporto, constituídos por: José Peres Valério, coordenador; José Venegas Gala; Diogo Assunção Fialho; João Luís Garcia Godinho e Joaquim Ferreira Ferraz, tiveram a iniciativa de criar o Clube Amadores de Pesca Desportiva de Barrancos, cujo emblema foi criado pelo consócio José Baleizão Rico, formando uma comissão administrativa pró-Clube. Formada esta, depararam-se com um obstáculo para legalizá-lo. Era necessária a existência de alguns valores monetários para se proceder ao respetivo registo dos estatutos. Para este fim o grupo arregaça as mangas e promove uns convívios piscatórios e  exploração do bar.

De salientar que este grupo não foi recebedor de qualquer ajuda monetária, à exceção das quotizações dos sócios. Apenas os transportes que a Câmara de Barrancos disponibilizou, bem como a instalação, reduzida, cedida pela Junta de Freguesia, foram as ajudas recebidas. Instalação esta que nada tinha a ver, com as atuais, mas era o que existia. De salientar, ainda, que a primeira secretária que houve foram duas caixas de cervejas (vazias) com um estrado em cima. Este era onde o mestre da música se colocava  para proceder aos ensaios de banda. Assim, levaram acabo dois anos até que, reunidas as condições necessárias, em 10 de Novembro de 1987, são legalizado os estatutos e criados os primeiros órgãos sociais constituídos por: ASSEMBLEIA GERAL: Presidente, Domingos Branquinho Mondragão; Vice-Presidente, António Manuel Martins Samarro;  Secretário, João Ramos Rodrigues. DIRECÇÃO: Presidente, José Peres Valério; Vice-Presidente, José Venegas Gala; Secretário, Diogo d’Assunção Fialho; Tesoureiro, João Luis Garcia Godinho e Vogal, Joaquim Ferreira Ferraz.  CONSELHO FISCAL: Presidente, Manuel Alves Alcario; Secretário, Francisco Manuel Escoval Raposo e Relator, Félix Porta Caçador. Nesta data já possuía algumas dezenas de sócios.  

Legalizado os Estatutos e a tomada de posse dos órgãos sociais,  a direção dá início a uma nova etapa e começa a contatar outros clubes da região e extra região  convidando-os a participarem nos concursos organizados pelo clube, obtendo uma aderência singular. Provas houve na barragem das mercês que ficaram com a lotação esgotada (156 concorrentes) e recusaram-se mais inscrições. Os prémios atribuídos aos melhores classificados eram: taças, troféus e outros que com a boa vontade dos empresários e outros amigos que se dignavam ofertar. Hoje os prémios são de forma diferente.

Entretanto outros órgãos sociais se seguiram e com esforços abnegados,  nomeadamente das direções, algumas, prejudicando muitas vezes a sua vida familiar em prol do Clube, têm conseguido perpetuar até aos dias de hoje, perfazendo 33 anos. Estas direções, umas mais que outras, criaram inovações fantásticas, desenvolvendo a atividade piscatória, transpondo o nome de Barrancos além fronteiras. Os associados, pescadores, começam a participar não só em eventos nacionais como também estrangeiros (Espanha) tornando-se assim, como é óbvio, pescadores internacionais de pesca à linha.

Concluindo e segundo informação da Federação Portuguesa de Pesca Desportiva, foi desde a década de 40 do século passado que a pesca desportiva de competição começou a ser praticada no país.

Aproveito esta curta narrativa para, na qualidade de um dos fundadores, deixar uma palavra de grande apreço, a todos os membros dos órgãos sociais em geral e direções em particular, que passaram por este Clube.

Bom Natal e Bom Ano a todos. Para os pescadores, em particular, um ano cheio de boas pescarias.
Barrancos, 12/12/20 
*Ass) José Peres Valério" 
Fotos de pesca/pescadores, arquivo pessoal de JPV

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Contributos para a história de Barrancos III - Homens e Mulheres que não foram crianças (Décadas de 40 até 60/70 do Séc. XX)

Mais uma excelente crónica de José Peres Valério:
"Não é fácil escrever sobre este tema se atendermos às diversas situações em que a criança estava inserida. No entanto, vou tentar transmitir nesta narrativa o melhor que sei por forma a ficar com uma ideia do que era a criança naquele tempo. Tempos amargos!!.
Os primeiros trambolhões que qualquer ser humano leva é quando nasce e quer começar a andar. Cai, levanta-se, torna a cair, levanta-se até que um dia ela, criança, começa a girar. Tem pela frente um espaço infinito que se abre à sua volta, mas com o continuar da idade e os estádios que vai passando, vai aprendendo a fazer tudo o que os seus progenitores e outros lhes vão ensinando.
Como a vida é dura, muitas delas, além destes, começam cedo a levar trambolhões!
Entretanto, a criança antes de atingir a idade obrigatória para ir  à escola,  naquela época aos 7 anos, passa por vários estádios, ou seja, a transformação que a criança vai sofrendo desde o nascimento até esta idade, sendo uma das principais a necessidade física da criança, a alimentação, higiene e uma casa condigna, como em todo o resto da vida.
Durante o Estado Novo só era obrigatório frequentar a escola até à 3ª. classe. Só em 1956 torna-se obrigatório os 4 anos de ensino primário, mas só para o sexo masculino, sendo alargado para o sexo feminino em 1960. Sabendo-se que a obrigatoriedade do ingresso escolar se reporta a 1835 (séc. XIX), ainda na monarquia, existindo, que saiba, dados apenas através dos censos de 1900, a nível nacional, que para a idade de 10 e mais anos, existia uma taxa de alfabetização de apenas 27% da população; em 1940 de 46%;  em 1950 de 58%; em 1960 de 67% e em 1970 de 74%. Como se pode verificar, a taxa de analfabetos existentes em 1940 é de 54%; em 1950 de 42%; em 1960 de 33% e em 1970 de 26%. Como se depreende, no período em questão, essas crianças, analfabetas, como o tempo da escolaridade não era ocupado, certamente andavam a dar  apoio aos pais nos trabalhos que estavam empenhados, nomeadamente no campo, que era o que predominava e outros ainda pelo abandono, devido à distância. De anotar que antes do século XV, a criança era vista como um adulto, não havendo nenhuma Lei que as protege-se. Só em 1911, 1ª. República do séc. XX, é que é criada a Lei de Proteção à Infância, nunca aplicada, sobretudo no período do Estado Novo, até à Consagração na Constituição da República Portuguesa de 1976.
Este período, sob a ditadura, fez com que a juventude tivesse um grau de iliteracia significativa contribuindo de tal forma para que a maioria das crianças fossem empurradas para o obscurantismo/ignorância, contribuindo para o atraso de um século em relação aos países desenvolvidos.
É óbvio que nem todas as crianças eram iguais, por força da sociedade em que se vivia. Havia famílias com um extrato social indigente (pobre), com pouca ou nenhuma capacidade financeira, e outras com um extrato social média/alta com grande  capacidade financeira.
As pobres, têm uma vida de pobreza extrema, que por motivos vários os pais não têm um tostão para lhes comprar uma simples chupeta de borracha; quando nasciam, improvisava-se um bocado de pano, enrolando-o, atado com um fio, molhado em água untado com açúcar para dar à criança/bebé, quando chorava calar-se. Brinquedos: sabendo da importância para o desenvolvimento da criança, principalmente didáticos, naquele tempo nada disso tinham. As que viviam no campo tinham como diversão brincar com os chibinhos (cabritos) que nasciam ou borreguinhos (cordeiros), que entre ambos formavam uma simbiose salutar; e outros que elas próprias inventavam. A alimentação era pouca e desnutrida, levando muitas ao aparecimento de doenças que muitas vezes originavam a morte. Gente carenciada em todos os aspetos!!!.
As que têm uma grande capacidade financeira, podem dar-lhes uma chupeta de borracha, ou de qualquer outra espécie, e os brinquedos, alimentação e tudo o  que a criança mais gostasse.
Posto isto, havia  uma diferenciação entre as classes sociais que era abismal. As crianças deveriam ter tido todas o mesmo tratamento social. Mas não foi isso que aconteceu. Senão vejamos: nas décadas supracitadas, em Barrancos como julgo em todo o país, as crianças dos  pobres quando nasciam não tinham nem um berço para se deitar condignamente; As mães, algumas delas, quando se deslocavam a trabalhar no campo, lavar roupa ou outros trabalhos,  levavam os filhos com elas porque não tinham onde os deixar, e  improvisavam um berço ou coisa parecida até à tarde de regresso à casa. Dias estes que a criança sofria com todas as vicissitudes da vida.
Em sentido oposto, as famílias com capacidade financeira têm tudo de bom para seus filhos, sem que tenham que passar pelas dificuldades que os outros passaram nem as canseiras que os pais destes tinham para dar-lhe um agasalho e bem-estar aos seus filhos.
Tempos em que a adversidade grassava por todo o lado!!!
Mais tarde, a classe pobre e outras da classe superior (poucas) por norma quando entravam na escola,  os divertimentos  com que passavam o tempo, além das inerentes à escola, eram brincadeiras mais para rapazes do que para raparigas: a jogar ao eixo, choca, corda, rebenta-e-três, burro na parede, ao pião, a bola, improvisada de trapos metidos numa meia, boliche (berlinde)  e outros.
Neste espaço de tempo ela brinca com brinquedos que os pais tiveram capacidade monetária para lhes comprar. Sim, porque nem todos podem comprar os brinquedos que a criança desejaria, uma vez que a grande maioria dos pais, naquele tempo, queriam 3$30 (três escudos e trinta centavos) para comprar um pão a preços da década 50/60, e não o tinham.
No Natal, estas crianças, com aquela inquietação, vulgar nelas, desesperavam na ansiedade de ver a luz do dia; nem dormiam,  para ver os presentes que  o “Pai Natal”, na altura Menino Jesus, tinha posto  no  sapato. Como eram pobres, os pais sem meios de subsistência, lá conseguiam colocar no sapato uns rebuçados, tablete de chocolate, lenço de mão, etc. Artigos de valor insignificante, mas a criança ficava  toda contente!!!.  
Chegado aos 7 anos de idade havia a necessidade de matricular os filhos.
Para os pais que tinham a sua vida na vila era fácil. Para os que passavam uma grande parte da sua vida no campo, casos havia que só vinham à vila nestas alturas, em dias festivos, como o Natal ou a fêra, tornava-se mais difícil.
Mas como havia muita gente fixadas no campo, houve a necessidade de criarem uma escola na herdade dos Fornilhos, propriedade de José Maria Machado, e outra na Mina da Apariz. Nos Fornilhos, a fim de dar cobertura a todas as crianças existentes na periferia da herdade, situada  na Freguesia da Amareleja, concelho de Moura, que limita com o concelho de Barrancos, abrangendo as Herdades da Viadeira, Cardador de Baixo e de Cima, Botefa, etc.. Crianças havia que tinham que percorrer aproximadamente 6 km, algumas descalças, salvo as da área da Botefa, que o proprietário da herdade trazia numa carrinha onde transportava os filhos dos seus trabalhadores  para poderem frequentar as aulas administradas por uma regente de ensino até a 4ª. classe.
Na Mina da Apariz a situação era diferente, em virtude de ter um aglomerado populacional elevado. Sendo que os alunos, salvo raras exceções, viviam todos naquele local frequentando o ensino, também, até à 4ª. classe.
A escola da vila, para além os residentes, era frequentada pelas crianças das herdades de Russianas, da Contenda e outras da periferia, que se deslocavam a pé percorrendo aproximadamente 6 a 7 km, desde alguns sítios, uma vez que as herdades tinham uma dimensão enorme. Todas estas crianças calcorreavam esses caminhos aguentando as intempéries: calor, chuva, vento, frio,..
Vestuário: bastante precário. Muitos casos houve que usavam calça curta, os rapazes, em todas as estações do ano, porque não havia dinheiro para calça comprida, que só vestiam quando atingiam a idade de 9/10 anos ou mais, quando os pais faziam o sacrifício, porque já eram uns homenzinhos. As raparigas usavam vestidos.
Entretanto, também havia as escolas particulares das Meninas Pinto e da D. Bella Pulido onde algumas crianças, davam os primeiros passos na aprendizagem escolar.
Não foi nada fácil para estas crianças, hoje, muitas delas, Mães e Pais!!!
Tempos que certamente não esquecerão!
Entretanto, quantas delas no pós-escolar tinham que dar apoio aos pais, face as suas potencialidades físicas, a guardar o gado e outros afazeres, como sachar (mondar), apanhar azeitona, etc, tanto para as que viviam no campo como para as que moravam na Vila. No entanto, casos havia também que, com uma enfusa - (pequeno cântaro) – ajudavam os pais, nomeadamente a mãe, a trazer água dos fontanários ou poços, porque água canalizada nem sonhar. Carregadas, aos ombros ou quadris, por falta de animais, para ajudar com alguns irrisórios tostões para o agregado familiar com a venda da  mesma. As raparigas iam ainda lavar roupa ao lado da mãe, que tinha apalavrado com algumas pessoas mais abastadas, nos batideiros (pedra para esfregar a roupa) do Arroio, da Ribêra ou da Pipa, ou a “servir” nas casas de lavradores, de alguns funcionários públicos ou de outros serviços.
Estas crianças estavam mal nutridas porque as jornas dos pais, quando recebiam, não lhes dava para poderem pôr na mesa a alimentação com nutrientes suficientes para seus filhos, a fim de poderem ter um desempenho eficaz nos estudos.
No período do término da 4ª, classe, até a idade de 12/15 anos, por vezes antes, os pais daqueles que moravam na vila, e também alguns do campo, que tinham maior disponibilidade financeira (poucos), ocupavam-nos na aprendizagem de um ofício. Outros, ainda, cujos pais não tinham essa possibilidade, aprendiam o oficio só até que tivessem capacidades física para desempenharem outras atividades mais rentáveis para arrecadar umas migalhas para a família.
E é aqui, quando as crianças ocupam outras atividades, que deixam de ser crianças para passarem a ser “emancipadas”, ou  “maior idade”. Pois passam a ter responsabilidades no desempenho das funções que lhes são atribuídas. Exercem as mais variadas atividades: de trabalhos de campo, a guardar gado, a acarretar água para casa de lavradores, nos cafés e tabernas, na sociedade (coletividades), e trabalhos inerentes a função, etc.. Apanhar azeitona, sachar (mondar), trabalho na estrada, etc. para poderem ajudar os seus pais que muitas vezes querem trabalho e não têm. E estas crianças, com o seu sentimento altruísta, contribuem para o sustente da família com a parca remuneração que usufruem cujo valor, nestes últimos trabalhos, é menos de metade do adulto, para o mesmo trabalho deste.
Algumas houve que tiveram que emigrar por falta de oportunidades na Terra  e, sabendo as dificuldades que tinham deixado para traz, do  magro soldo que usufruíam ainda mandavam uma quota parte para seus pais.
Estas crianças NUNCA FORAM CRIANÇAS, passaram muitas privações, fome e sofrimento!
Com a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, a criança começa a ocupar o lugar que lhes pertence, que é seu !!!.
Crianças com responsabilidade e humildade!
Crianças que não olharam a sacrifícios para ajudar os seus pais nas dificuldades económicas que constantemente se deparava a família!
Quem, Criança daquele tempo, hoje adulto, Mãe ou Pai, não se recorda das adversidades que passaram?
Barrancos, 21/10/2019 - Ass) José Peres Valério"

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Subsídios para a história de Barrancos II - Recuando no tempo

"Nesta pequena resenha que vou traçar vou recuar no tempo! Se bem que não podemos recuar porque esse passa sem nos apercebermos mas no entanto fica a memória de todos: velhos, meia-idade, novos. Como dizia o autor: o tempo passa e o homem olha para ele reconstruindo-o com a memória.
Tomando o pensamento deste autor verificamos que os velhos, velhinhos já, com uma vivência antes da década 50 e outros até fins da década de 60 princípio de 70 do século passado, têm uma história da vida que olhando-a para a dos dias de hoje é uma diferença abismal. Era trabalho casa/casa trabalho. Sol a Sol. Mal alimentados. Subnutridos, mal vestidos, sem quaisquer agasalhos para suportar as invernias. Aguentando, os trabalhadores rurais, todas as intempéries: lavrando, semeando, mondando, ceifando, debulhando; pedreiros e outros, etc.. Muitas vezes tapando-se com uma saca de sarapilheira por ausência de fatos de água porque não havia posse para o comprar, em dias de chuva, encharcada em água pesavam o dobro ou o triplo do peso dela, sem olhar ao peso que tinham encima, lutavam por todos os meios para ganhar o sustento do dia-a-dia, quando havia, para alimentar os seus filhos e restante família. Quantas vezes cheios de raiva e com uma debilidade extrema sem ter uma saída para ganhar meios de sustentação para o agregado familiar!
Dias e dias, semanas e semanas sem trabalho. Sem ganhar um tostão. Desemprego não havia. Regalias sociais era uma palavra desconhecida.
Cada dia era igual ao dia anterior e ao dia de amanhã e cada ano ao antecedente e ao subsequente. Período este que trouxe muito constrangimento.
Chegado ao fim da década de 50 princípio de 60, não havendo trabalho que lhes permitissem sonhar com melhores dias verificou-se um grande êxodo com os jovens muitos deles acompanhando os familiares emigraram para o estrangeiro, Lisboa e periferia e outras paragens para poderem sobreviver e simultaneamente saírem do obscurantismo que se vivia.
Não foi fácil para esta gente. Gente que queriam trabalho e não tinham. Quantas vezes para ganhar o sustento tinham de se deslocar aos trabalhos das estradas como por exemplo em S. Martinho das Amoreiras, Santana da Serra e por outras paragens do país, porque em Barrancos não havia, através do Fundo de Desemprego, por via da Câmara Municipal de Barrancos, recebendo uma jorna diária de 20 escudos que, deduzidos 1$40 (um escudo e quarenta centavos), para o Fundo de Desemprego, usufruíam o valor líquido de 18$60 (dezoito escudos e sessenta centavos). Os transportes para estas duas localidades eram feitos numa camionete de caixa aberta como se fossem mercadorias que, em dias de chuva, eram tapados com um oleado como se de mera mercadoria se tratasse. Bancos na camionete não existiam. O Oleado não tinha qualquer estrutura de suporte. Era posto diretamente encima dos corpos num percurso de aproximadamente 190 Km.
Raízes de sofrimento que certamente também passaram pelos nossos antepassados.
Tempos de Infortúnio!
Uma vida cheia de canseiras! Procuravam vender uma carga de estevas ou raízes de azinheiras que conseguiam através dos mais abastados que depois de lhes terem tirado a lenha e ficado o tronco rente ao chão, iam com cunhas e marra destruir o tronco e as raízes para fazer a carga de lenha. Deitavam mãos a tudo que pudessem fazer uns centavos para sustento familiar. Incluso, alguns, a varrer as ruas para juntar o estrume que os animais defecavam na transição pelas ruas e juntarem-no numa estrumeira, durante o ano, na periferia da vila, para mais tarde, no tempo da fertilização das terras venderem gorpelhas de estrumes cujo valor era de: muar 3$50 (três escudos e cinquenta centavos) e asinino 2$50 (dois escudos e cinquenta centavos) para poderem angariar mais alguns tostões para sustento do agregado familiar. Tempos Difíceis! De salientar que com este desempenho era uma forma de trazer as ruas limpas sem que o erário público tivesse que gastar uns tostões com a limpeza das ruas.
Em síntese: Tempos de escravidão!
Diversões apenas usufruíam em alguns dias festivos para poderem expandir a sua alegria que no momento lhes iam na alma. O restante tempo do ano era trabalho, só trabalho e canseiras.
Entretanto com o advento do 25 de Abril de 1974 uma grande lufada de esperança se abriu na nossa terra bem como em todo o país.
Quando tomaram conhecimento que de uma parede saía dinheiro nem queriam acreditar, como é óbvio. Fruto da tecnologia que atravessamos.
O Tempo entretanto passou, que não para, e as camadas mais jovens entram numa fase de desenvolvimento e tecnologia mais avançada nomeadamente a informática,  permitindo-lhes novos rumos.
Todavia e apesar de todo o desenvolvimento verificado, na nossa terra verifica-se, nos dias de hoje, uma desertificação paulatinamente com a emigração das camadas jovens a procura de trabalho que em parte, faz lembrar os tempos citados quando se cotejam.
Quem, gente daquele tempo,  não se recorda de todos os trambolhões que passaram!? Agruras do tempo, ou da vida!!!
Barrancos, 26 de Setembro de 2019 - ass) José Peres Valério"
Rua da Igreja, anos 1980
(Foto: s/a)