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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Contributos para a História de Barrancos (XXI) - o mel

Publicamos hoje, com a autorização do seu autor, José Valério, o contributo XXI para a História de Barrancos, neste caso, sobre o Mel.
(...)

"Antes de me debruçar sobre o mel produzido em Barrancos, faço uma introdução, do que a história nos diz, sobre as abelhas melíferas (Ápis mellífera).

A função principal, ou mais explorada, delas é a polinização. O seu desempenho é terminante, visto ter-se descoberto que cerca de 2% das abelhas selvagens do planeta são responsável pela polinização de 80% das culturas mundial. Isto revela que sem abelhas não haveria frutos e vegetais, inseparáveis a alimentação do homem, herbívoro e carnívoros, destruindo a agricultura e a indústria. A importância para o ecossistema é notória: sem abelhas seria o fim. Toda a cadeia alimentar sofreria e os animais morreriam, (Fonte: National Geographic).

A formação do mel está relacionada com o processo de polinização das flores que proporcionam uma alteração aromática. Dentre os variadíssimos insetos atraídos, temos as abelhas, que sugam o néctar da flor. Durante o transporte, diversas secreções são acrescentadas ao néctar, depositando-o em favos onde perderá grande parte da sua água e se transformando em mel. Existem dezenas de variedades de mel, que se obtém, segundo a floração existente, num raio de ação de 3 Km de distância de suas colónias. O mel monofloral (de uma única flor), é considerado melhor e plurifloral (de várias flores). Muitas pessoas se interrogam quando vêm o mel cristalizado: Será bom ou mau? Especialistas afirmam que quando cristaliza, é a forma da sua qualidade e da sua pureza. É um importante complemento à alimentação humana. (Fonte: Wikipédia-Enciclopédia livre).

Desde tempos ancestrais, o mel foi utilizado como alimento pelo homem, obtido inicialmente de forma primitiva. Muitas vezes, de maneira danosa às colmeias feitas em troncos e ramos de árvores, rochas, paredes, buracos no solo, etc. Porém, muito deste mel não era aproveitado pelo homem. Com o correr dos séculos, aprendeu a capturar enxames e colocá-los em colmeias artificiais. Com o desenvolvimento das técnicas que através do tempo foi inventando, conseguiu aumentar a produção e extraí-lo sem danificar a colmeia.

Além do mel, podem obter-se diversos produtos: pólen apícola; pão de abelha; própolis; geleia real e cera. No uso medicinal sempre foi reconhecido devido às suas propriedades terapêuticas. Além do alto valor energético, é um alimento rico em substâncias benéficas ao equilíbrio do nosso organismo, como: vitaminas, minerais e aminoácidos. A própolis é um produto com fortes propriedades de cicatrização de feridas e efeitos: antibacterianos; anti-inflamatórios; antifúngicos e antivirais. Também usada na fabricação de cremes, pomadas e cosméticos, bebidas (ex. hidromel). As abelhas melíferas vivem socialmente em colónias, organizadas em colmeias, existindo apenas uma rainha, única fêmea fértil, (fecundada por zangões) responsáveis pela postura dos ovos. As restantes são operárias, fêmeas inférteis responsável por todo o trabalho da colmeia. Têm uma esperança de vida de vários anos. São dos insetos mais sensíveis às alterações climáticas.

Há uma grande preocupação com a diminuição das populações, principalmente na Europa e América. Razões para esta quebra incluem: agricultura intensiva, uso de pesticidas, poluição, doenças, varroas e outros ácaros que as definham, uso de culturas geneticamente modificadas e extensas áreas de cultivo de uma única cultura,  vespas asiáticas, grandes predadoras, o ratel (texugo-do-mel) e aves, como os abelharucos (Fonte: National Geographic).

Para os nativos das Américas, o mel e a cera produzida pelas abelhas sempre foram de extrema importância. O mel era consumido ao natural ou para adoçar outros alimentos. A cera era usada na vedação de utensílios como: cola, polimento, lubrificação de artefactos e na iluminação.  

Chegado aqui, cabe-me relatar algo do que foi ─ e é ─ em Barrancos a apicultura. Esta atividade remonta a milhares de anos. As colmeias: normalmente usam-se as colmeias tradicionais e as caixas. Ambas feitas pelo homem, mas a tradicional é totalmente artesanal sem espaço padronizado ─ o cortiço  − como o nome indica, feito de cortiça, com formatação cilíndrica. No interior existe as trancas ou cruzetas (varas de estevas, normalmente duas ou tês, que suportam o peso dos favos carregados de mel) Ainda hoje utilizado por muitos apicultores. Sendo a função do apicultor cuidar bem da colmeia (para que esteja sempre saudável e produtiva), desenvolveu as caixas, mais modernas, a partir de pesquisas cientificas, para melhorar as condições das abelhas e da produção. Outras formas existiam em outros locais.

Em tempos remotos, Barrancos tinha muita gente que vivia no campo: pastores e trabalhadores em outros fins, etc. Na Primavera, época da saída dos enxames de vários apiários, muita desta gente capturava-os conseguindo formar uma ou várias colmeias e, chegado o tempo, extraíam o apreciado néctar para todo o ano. Outros, vivendo na vila, também apanhavam os enxames tresmalhado pondo-os em cortiços ou caixas na periferia da vila ou em apiários já existente. Pequenos agricultores possuíam apiários com bastantes colmeias em cortiço, o mais usado até o aparecimento das caixas em madeira. Os falecidos: padre Agostinho Antunes dos Santos e José Leal Pinto (grandes apicultores na década de 1950 ou 60), padronizaram este sistema, mais produtivo, dando azo a que outros apicultores seguissem o mesmo caminho, até aos nossos dias. Há no tempo que corre, muito mais interesse na incrementação desta atividade, economicamente mais rentável, que naquela época. Todavia, que se saiba não existe nenhum apicultor em Barrancos que extraia outros produtos  acima citados, a não ser o mel. Nem existe a pratica da transumância ou apicultura migratória (deslocamento das colmeias de um local para outro distante, durante a floração). No fim retiram-nas para o local de origem ou para outro local.

Chegada a época da colheita, estes apicultores, não profissionais, deparavam muitas vezes com uma safra que as abelhas produziam em quantidade excedente, considerando o consumo anual familiar. Que fazer com o remanescente? Era vendido através de comerciantes que se deslocavam e deslocam para Barrancos na compra do apetitoso néctar. Uma forma de arrecadar uns tortões para adicionar ao magro orçamento familiar. Porém, há alguns apicultores que o vendem em frascos de meio quilo ou quilo.

Pergunta dos leitores menos esclarecidos: como é extraído o mel?

1 ─ Os favos no cortiço eram e são tirados e espremido à mão, obtendo-se o mel e a cera. A cera deixada da espremedura era fervida em água obtendo-se a água-mel, muito apreciada na nossa terra. A espuma resultante dessa fervedura era utilizada por muita gente na alimentação, untando-a no pão. Esta operação era muito trabalhosa e dispendiosa com o consumo de lenha ou gás. A cera não utilizada com este fim era tratada e prensada em finas folhas que, através de máquina especializada, são gravados hexágonos onde as abelhas constroem os alvéolos usados para reprodução ou para depositar o mel. Esta cera é colada aos arames existente nos quadros novos, através de um dispositivo aquecido. Ou comercializada. Tem variadíssima aplicações.

2 − Os quadros tirados das caixas, que se encontram em cima do ninho (colmeia), são colocados num extrator manual ou centrifugadora elétrica. Extraído o mel, ficam os quadros apenas com a cera que será reposta na caixa, e colocada novamente na colmeia. Esta cera e a dos novos quadros é trabalhada pelos laboriosos insetos, formando os alvéolos, como atrás se diz, para reprodução ou armazenamento do mel. Nos dias de hoje existem equipamentos mais sofisticado que, julgo, em Barrancos não os há.

Toda esta atividade é feita com vestuário especifico acompanhado do fumigador, fole (dispositivo com função de produzir fumaça para evitar picadas das abelhas).

Terminada a safra, o belíssimo néctar produzido em Barrancos, está disponível para ser consumido e comercializado pelos apicultores.

Barrancos, 25 de Outubro de 2021
Ass) José Peres Valério"
Fotos: Wikipédia, a enciclopédia livre, visualizadas em 15/10/2021, 
por José Peres Valério

sábado, 18 de setembro de 2021

Contributos para a História de Barrancos XX – Forma de aquecimento em tempos idos

Mais um contributo (XX) para a história de Barrancos, de José Peres Valérioque o eB publica, abaixo, com a cortesia do seu autor:

"Descobri, arrumando a minha papelada, um jornalzinho com o título PICON DE ENCINA (Picão de Azinheira) que se publicava, (e se publica?) na década de 90 do Séc. transato, na nossa vizinha Encinasola - Espanha. Achei o título curioso, despertando-me a atenção. Pensei: o que este bem deu na nossa terra! Abri a imaginação. Comecei a escrever.

Quando escrevo, sobre a história de Barrancos, faço-o, geralmente, para descrever circunstâncias vividas pelos nossos antepassados, em épocas idas. Julgo necessário não esquecer mais este, relato verídico, sentido na pele por gente que viveu os tempos.

Vida dura e hostil! Tempos amargos! Tempos de miséria! Os trabalhadores, com parcos recursos, “não arredaram pé a sacrifícios”, a fim de acarearem meios que pudessem ajudar e alimentar a família, proporcionando-lhe  bem estar. Daí deitarem mãos a tudo que desse uns tostões. Estas pessoas, sem trabalho, sem subsídios: de desemprego, abonos de família, doença, etc., tinham que inventar maneiras para poderem ganhar algumas migalhas.  

Quem me lê, interroga-se: Porquê este contributo? Simples, diria  eu.  

 Antes do aparecimento das braseiras elétricas e outros aquecimentos elétricos, havia uma actividade que era ganha-pão de muitos durante o Inverno e Primavera.

 Qual? − A poda do azinhal, conhecido pelo povo como os cortes. Em algumas herdades, os ramos de árvores, depois de chapoteados (chapotados), eram transformado em picão. A transformação era feita no campo. Juntavam-se grandes quantidades de ramos de azinheira ou estevas, já citados, ateando fogo ao monte até atingir o rubro. Seguidamente, com uma forquilha ia-se dando volta e molhando, à mão ou regador, simultaneamente, até ficar em carvão (picão). Exigia muito cuidado, não fosse o picão ficar em cinza. E não se podia deitar água a mais, para que ardesse melhor. Depois, deixava-se arrefecer  e  ensacava-se, para ser utilizado e vendido. Posto na braseira, era acendido com brasas do lume, que certas pessoas tinham na lareira; ou com petróleo, pontas de chamiços, etc. requerem muito cuidado devido à libertação de monóxido de carbono. Muitos casos de morte se têm registado no país por falta de prudência.

Esta fonte de aquecimento era usada  na camilha, onde era colocada. Nos dias muito frios de Inverno, as pessoas passavam muito tempo sentadas à braseira, sobretudo ao serão. Nas Sociedades dos “pobres” e dos “ricos”, havia seis ou sete acendidas diariamente para aquecimento dos sócios, assim como nas tabernas.

Também de esteva seca, melhor do que aquele, se fazia. O inconveniente que  tinha, era arrancá-las a braços. − São de enaltecer as variadíssimas aplicações que a sua resina (ládano) possui: das propriedades medicinais (poderoso antissético, antibacteriano e antiviral), até aos perfumes e tinturaria−. As pessoas que tinham padarias ou fornos em casa usavam-na como fonte de calor na cozedura do pão. Quente o forno, era varrido metendo-se  as brasas em recipientes e tapando-os até arrefecerem.

A grande maioria das casas  possuía lareira. Faziam lume, aqueles que podiam, não só para aquecimento como também para cozinhar legumes, carnes ou outros. Fogão a gaz não havia por aqui. Famílias mais indigentes,  sem meios  para comprarem lenha e fazerem lume, para confecionarem os alimentos, pediam umas brasas às vizinhas que as tinham. Estas, com sentimento altruísta não só lhes davam uma ferrada de brasas como também feixes de chamiços ou estevas. Outros pediam o animal emprestado, normalmente o burro, para trazer xaras dos terrenos baldios ou outros locais.  E assim iam vivendo até chegar o tempo quente.

Existia espírito solidário, apesar da pobreza. Mas nem todos os trabalhadores passavam por esta situação: havia os que trabalhavam todo o ano com os lavradores, e no período dos cortes traziam cargas de lenha, no asno, quando vinham a casa, para descansarem no Domingo. Além destes, havia outros trabalhadores sazonais para os cortes, ocupados em herdades menos extensivas, que também traziam o apetecido combustível.  

Porém, a grande maioria dos trabalhadores não possuía terrenos que tivessem azinhal ou outras variedades de plantas, capazes de produzir aquele material.

Questiona-se: − Então, como conseguiam adquirir essa matéria-prima, tão desejada?

− Os proprietários do grande latifúndio, e outros, possuidores de grandes superfícies de azinhal, cortavam as azinheiras secas, ou não, para seu consumo. O tronco deixado, era dado a quem o pedisse: ao  guarda ou feitor da propriedade. Por norma o pedido era aceite.

Os citados muniam-se de marra, cunhas e alvião, espatifando o tronco e arrancando as raízes das entranhas da terra e levar a carga de lenha para casa ou vendê-la. Bastante falta faziam os magros tostões, conseguida através de grande dispêndio e energia que estas pessoas libertavam com este duro trabalho. Outras vezes, com trabalho menos duro, acarretavam estevas secas ou chamiços. Mas nem sempre tinham a sorte de chegar a casa com a lenha.

Certo dia, fins da década de 1950, um individuo depois de farto de trabalhar, para fazer a carga de lenha, já apalavrada para venda, foi interceptado pela patrulha da GNR à entrada da vila:

− De onde traz a lenha?  E o documento de autorização?

− Trago-a de uma propriedade particular, com ordem do guarda do terreno que tinha à sua posse. − Como o guarda da propriedade não sabia escrever, não o passou. Tudo foi tratado verbalmente, como era hábito.

Ato continuo, a guarda mandou entregar a lenha na União de Caridade das Senhoras de Barrancos (Sopa dos Pobres), sita na Rua 1º. de Dezembro nº. 66, hoje extinta, alegando estar em transgressão à norma praticada. E assim, o pobre com a esperança de receber uns tostões para a compra do pão, viu-se de mãos a abanar. Outros tempos… tempos ditatoriais!

Algumas desta gente, também fazia carvão de raízes do breço (nome conhecido em Barrancos), ou seja: urze ou torga. No interior do país, essa planta era usada com variados fins, como vassouras ou escovas artesanais. Entre nós, o carvão de breço foi muito utilizado nas forjas até ao aparecimento do carvão de pedra ou mineral. Na Herdade da Contenda, sítio das cortes, abundavam as urzes.

Curiosidade: o médico, poeta e grande escritor Miguel Torga foi um grande apaixonado pelas urzes. Utilizou este pseudónimo (Torga) em homenagem a esta planta, que existia em grande quantidade na sua terra natal, S. Martinho de Anta, Vila Real. Junto a sepultura, em campa rasa, foi plantada a seu lado uma torga ou urze, em honra ao poeta.

E como já vemos uma luz de esperança no fundo do túnel, com o desvanecer da pandemia, conforme o coordenador da “task-force” ter assumido que Portugal “já ganhou a este vírus”, nunca é de mais desejar que desapareça definitivamente e o mundo regresse à sua normalidade.

Barrancos, 15/09/2021 - Ass) José Peres Valério"

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Contributo para a História de Barrancos (XVI) - o saneamento básico

Mais um contributo (XVI) para a história de Barrancos, de José Peres Valérioque o eB publica, abaixo, com a autorização/cortesia do seu autor:

"Citando Jaime Salter, escritor: A vida passa e o homem olha para ela reconstruindo-a com a memória.

Tomando esta frase, passo a descrever mais um contributo, que me vem à memória, desta vez sobre salubridade pública.

O saneamento básico está relacionado com a prevenção e controlo de doenças transmissíveis, diretamente confrontado com os elementos básicos (ar, água, alimentos, etc.); qualidade do que é saudável e higiénico; conjunto das condições favoráveis à saúde.

Não é fácil, nos tempos que correm, alguém (chegado exausto a casa, depois de um dia de trabalho) imaginar querer tomar um duche ─ ou defecar ─ e não ter instalações sanitárias para o fazer. Dir-se-ia: nem passa pela cabeça dos mais distraídos. Porém, este martírio aconteceu. Nem sempre houve essa regalia na nossa terra, bem como nas províncias deste país,  à exceção das grandes cidades, que cedo possuíram este bem.

Em Barrancos até à década de 1960 inclusive, pouco ou nada se respeitou aquele princípio, pelo então Estado Novo. Senão vejamos: para melhor entendimento dividi os habitantes em três classes sociais.

1  - os abastados, grandes senhorios com “palácios” e latifúndios;~
2 - os menos abastados (pequenos agricultores) que possuíam o minifúndio, vivendo da exploração das terras, e os comerciantes;
3 - a pobreza grosso da população, que nada tinha e trabalhava para os primeiros e, às vezes, para os segundos.

Os primeiros desfrutavam de condições sanitárias suficientes para possuírem casas de banho com banheira ou chuveiro, com água acarretada pelos criados. Algumas das casas dos segundos, tinham também condições, mas, nem todos tinham casa de banho. E os pobres, nada tinham. Uns pela exiguidade da habitação. Outros por força das condições do terreno eram impedidos de ter os esgotos ligados à diminuta rede de escoamento existente na vila. A higiene, a que qualquer ser humano tem direito, não estava acessível a todos. Algumas casas, poucas, tinham atrás da porta de entrada um cano que era ligado a uma fossa séptica (a maioria nem sabia o que era) que algum vizinho, dono de curral confinante à casa, autorizava a ligação. A população pobre, (face às dificuldades com que deparava, com os parcos soldos que usufruía, quando usufruía) não possuía dinheiro para se poder ligar ao sistema público. Sem esgotos, não tinham outros meios senão utilizarem bacios ou latas para defecar e outras necessidades. Banhos, utilizavam uma paneira (recipiente em zinco) ou alguidar e aí faziam a sua higiene, porque água canalizada, nem sonhar. Mas, pergunta-se: Onde depositavam as pessoas os dejetos? Pergunta pertinente. Resposta difícil.

Na periferia da vila, muito próximo das habitações. Algumas ruas com casas de um lado e lixeira do outro. Existiam estrumeiras a céu aberto que recebiam todos os excrementos (humanos e de outros animais) e lixos de toda a natureza. Expostas a contaminações de toda a espécie sem que houvesse solução para a eliminação deste mal. Como os animais de carga (cavalar, muar e asinino) predominando os últimos, as ruas eram varridas por gente que apanhava o estrume dos animais que defecavam, no trajeto de e para as casas, ficando as ruas limpas sem qualquer custo para o erário público. Para a deposição deste estrume, estas pessoas tinham estrumeiras fora da vila que vendiam na época da fertilização das terras.

Entretanto, nas casas exíguas e nalgumas dos menos abastados, também existiam cabanas para os animais citados. Utilizavam a porta principal em virtude de não possuírem saídas para outras ruas que dessem acesso aos quintais, logo, às cabanas. Pela única porta, entravam e saiam. Além de os animais, as brasinas (género de alcofa em malha de cordel) com palha; lenha; fenos para alimentação dos animais; estrume; etc. tudo passava pelo corredor da casa.

Casas havia, dos mais desfavorecidos, que tinham galinhas para alimentação da família, que andavam todo o dia na rua. Bicando aqui e ali até à tardinha que se recolhiam no quintal ou cabana.

Felizmente hoje temos todas as condições de salubridade pública necessárias, ainda que, como consta nos censos de 2001, houvesse 20 alojamentos sem retrete e 98 sem banho ou duche. Pelo feito, congratulamo-nos com este bem e com a água canalizada, que o 25 de Abril de 1974 nos trouxe. Sim, porque foi após o advento desta data que as Câmaras começam a receber transferências da Administração Central para obras destinadas à salubridade pública.

Sem saudosismo, considero ser de alguma importância citar: olhar o presente, pensando no futuro sem esquecer o passado.

Barrancos, 28/02/2021 – ass) José Peres Valério"

Remodelação das condutas de água de Barrancos
Foto: Arquivo, eB)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Contributos para a História de Barrancos (XIV) - a Tapa e o tapêu

Mais um excelente contributo de José Peres Valério (texto e fotos):
(...)
Tapa palavra com variadíssimos significados. É uma forma verbal na 3ª pessoa do singular, do presente do indicativo do verbo tapar, que nada tem que ver com o que se passa a descrever.  Esta palavra tem aplicações de tapamentos, ou sapatos, até à culinária. Nesta área, para qualquer Barranquenho a Tapa não é desconhecida, mas certamente ignorada por alguns. Posto isto, passo a relatar o que a história nos diz. Oriunda de Espanha, tinha por finalidade de ser colocada na boca da taça, com bebida, para evitar a entrada de pó. Usavam-se fatia de queijo, presunto ou outras. É um aperitivo servido, desde tempos remotos, nos bares e restaurantes de Espanha para acompanhar as bebidas que, segundo lendas, de conhecimento oral, existem várias hipóteses sobre o aparecimento das Tapas. Um dos mais conhecidos diz que as Tapas surgiram no século XIII durante o reinado de Afonso X de Leão e Castela que, devido a uma doença se viu obrigado, a tomar goles de vinho e, para evitar a embriaguez, comia alguma coisa acompanhando o vinho.  

Outra, conta que os reis católicos obrigaram os taberneiros a servirem, com a taça de vinho ou cerveja, uma Tapa, fria: queijo; presunto; chouriço, o que houvesse.

Uma versão popular mais simples diz que as Tapas surgiram da necessidade dos trabalhadores em adquirir força para seguir trabalhando até a hora do almoço. Essa necessidade era preenchida com a ingestão de um pouco de comida acompanhada por um pouco de vinho. Todavia é antigo o costume espanhol de se comerem pequenas porções de comida para aliviar a fome.

Entretanto, com a expansão por toda a Espanha, este hábito, converteu-se num fenómeno culinário exportado para outros países, nomeadamente: EUA, América Latina e outros, sem esquecer Portugal.

Dada esta pequena introdução passo a narrar o que é a Tapa em Barrancos.

Barrancos, situado na fronteira Leste do país, que desde cedo começou a adquirir costumes e culturas com os povos espanhóis mais próximos, em especial Encinasola por distar 9 Km e, também, ainda que mais distantes, Oliva de la Frontera, Higuera la Real e Fregenal. Tomando aquela lenda, pensa-se que neste intercâmbio a Tapa foi uma das bases da culinária que o povo de Barrancos adquiriu, prevalecendo até os dias de hoje.

Quando, chegado a um café, sociedade, restaurante, hotel e pedir uma taça, um jarro de ¼ litro ─ que predomina ─, ou uma garrafa de vinho, a Tapa, fria ou quente, acompanha sem necessidade de ser pedida, incorporada no custo da bebida. Com a cerveja não há Tapas, mas às vezes, os empresários, põem também amendoins ou outros. É óbvio que com um bom vinho não há melhor acompanhamento do que uma boa Tapa. Quantas vezes pessoas, de passagem por Barrancos, constatando este facto, se interrogam, exclamando: Como é possível! Depois, quando se explica o “fenómeno” responde, a grande maioria, que em nenhuma parte do território nacional se verifica tal prática. De facto não se sabe concretamente  se  em todo o território fronteiriço ou não, se pratica este sistema. Mas por aquilo que se ouve dizer, julga-se que Barrancos será o único ou muito próximo de sê-lo.  

É um sistema implementado desde os primórdios dos tempos.  Uma forma de socialização entre amigos.

Chegado o desejado Domingo, dia de descanso com momentos de descontração depois de uma semana de trabalho árduo, os trabalhadores rurais em especial e alguns artífices, juntavam-se nas tabernas bebendo uns copos de vinho com a boa Tapa.  Daí seguiam para outras, grupos de 6/7 indivíduos, às vezes até mais, entoando as nobres quadras ancestrais alentejanas, que nos transmitem os sentimentos e momentos do quotidiano, pelas ruas até chegarem à taberna mais próxima. E assim prosseguiam por umas quantas, − bebendo uns copos e Tapeando ─ ora numa, ora noutra.

Barrancos sempre teve variadíssimas tabernas que serviam Tapas de excelência. Quais, dos que provaram, não se lembram das pardelhas assadas com coentros, cebola, alho e azeite com que alguns taberneiros, por exemplo: Tio Tomás Tereno, entre outros,  tinham o gosto de nos presentear?

Barrancos, também se preza de ter variadíssimos cantadores do cante alentejano que outrora se elevaram em concursos conquistando alguns 1ºs. lugares. Foi possuidor de dois grupos, qual deles o melhor. Pena que hoje não haja um, que represente a nossa terra por outros mundos.

Entretanto, a título de curiosidade, passo a citar as tabernas, cafés e restaurantes, que recordo, algumas, com nostalgia, desde a década de 50 do século transato: tabernas do tio Zé Grabiel, na Rua da Parra; Tio Manuel Pelador, Rua Jerónimo Vasquez; Zé Fialho (Zacarias), Rua da Igreja; Sociedades Recreativa e Sociedade União, na Praça da Liberdade; A Pipa e Tia Remédio e Café Central, Rua da Praça da Liberdade ; Tio Zé Burgo e Tio João Bergano, conhecido por Joanilho, na Rua S. Sebastião; Tia Vitória, Largo do Altossano; Zé Basso, hoje Restaurante A Esquina, na Rua das Fontainhas;  Manuel Ortega, mais tarde Tio Zé Burgos, tio António Oliveira conhecido por António Bomba, Tio António Nunes/Domingos Fretes, André Taberneira mais tarde José Costa, conhecido por Zelilha, Tio António Currito, Gabriel, Tio Tomás Tereno mais tarde Florindo Carvalho, Manuel Costa, conhecido por Manuel Minhoca, na Rua Forças Armadas; Zé Nunes, Tio António Bergano, conhecido por António Lalo, Sociedade Filarmónica, Tio Zé Mourenho, Tio Mateo, Largo de Montes Claros; Tio Zé Nunes (pai), Zé Nunes (filho), Tio Sequeira, Carlos Mourenho, Restaurante Miradouro, Diogo Pelau, António Lobo, João Cantare, Carlos Durão, mais tarde outros, Tio Carixa e Hotel Agarrocha, Rua 1.º de Dezembro; Manuel Candêo, Rua de Moçambique.

Barrancos, 17 de Janeiro de 2021

ass)José Peres Valério

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Contributos para a História de Barrancos XIII – A pesca nas águas interiores *

Mais um contributo (XIII) para a história de Barrancos, de José Peres Valério, que o eB publica, abaixo, com a autorização/cortesia do seu autor:

"Com a narração que se segue tento passar uma pequena descrição do que foi, e é, a pesca nas águas interiores, em Barrancos.

Assim, todos sabemos o que é a pesca, mas nem todos sabemos o significado que teve e tem para a humanidade desde os primórdios dos tempos. Desde que há memória, a pesca sempre fez parte das culturas humanas, fonte de alimento, mas também do  modo de vida. É um recurso que satisfaz, não só as necessidades de alimentação do homem como também as necessidades de lazer e de recreio sendo, neste capítulo, um dos mais notáveis de todos os desportos. Leva-nos para junto da natureza proporcionando horas de grande regozijo. Ela é a captura de animais aquáticos destinados a diversos fins: subsistência, (continua a ser muito importante em todo o mundo); pesca desportiva, como atrás se diz;  negócio; fabrico de rações  para o alimento de animais; produção de substâncias com interesse para a saúde, com apreensão, feita nos mares, como por exemplo: (óleo do fígado de bacalhau, muito utilizado em tempos idos), etc…

Entretanto o homem, com a sua astúcia, inventa os utensílios necessários para rentabilizar e captar cada vez mais quantidade de peixes, aperfeiçoando-se paulatinamente com o decorrer do tempo até aos nossos dias. Hoje com materiais muito sofisticados, existe uma grande concorrência no domínio da competição à linha. Outrora a pesca com linha e anzol foi uma das principais formas de aprisionar os peixes. Esta técnica é utilizada há milhões de anos. Como se depreende, há muitas formas de pescar: desde as embarcações; passando pelo tresmalho (rede retangular); tarrafa (rede circular); até à linha, acima citada. Outras formas existem como: linha-de-mão; com mosca; rede emalhar; ao fundo; etc…

Aqui chegado, importa relatar um pouco a vida piscatória que foi, em tempos idos e  atualmente em Barrancos.

Até as décadas de 60 do Século XX, como a pobreza teimava em se apoderar dos pobres, tornando-os cada vez mais paupérrimos, as grandes dificuldades havidas em adquirir trabalho, sem quaisquer meios para o sustento do agregado, (subsídios do Estado, nem falar),  houve alguns trabalhadores, chefes de família, que, para ganharem o pão de cada dia, se dedicavam, entre outros, a capturar peixes para vender, pelas ruas e na praça, sobretudo, das ribeiras do Murtega e Ardila. O barbo, bogas, escalo (bordalo), pardelha, eram os peixes, mais apetecido pela população. A carpa, predominando, a grande maioria das pessoas abdicavam delas. Os apetrechos que utilizavam eram primitivos como: tresmalho ou tarrafa. Havia tio José e irmão António d’Abrio mais conhecido por António Organisto; tio António Calhaco e filho, André e Tio Zé Sardinheiro, que abraçaram esta atividade, com muita frequência, havendo, no entanto, outros que esporadicamente também a praticavam.  

No que ao lazer diz respeito, muitas pessoas, nomeadamente os artífices, com empregos na vila, mais necessitados de respirar ar campestre, chegado o fim de semana, na Primavera ou Verão, apanhavam: nos burrinhos, quem os tinha ─ sim, porque carros e motorizadas só mais tarde, dando lugar aos jumentos ─; nas canas de pesca, alguns. Porque a maioria eram apanhadas nas margens da Ribeira ou Arroio e aí vão eles caminho do  Ardila e Murtega uns, e Arroio outros. Sem esquecer os farnéis, porque, às vezes, em vez de apanharem peixes apanhavam um “Chibato/Grade”, ou cágados. Iam sempre com a esperança de agarrar uns barbos, bogas ou pardelha, o que viesse. Feita a pescaria, que desta vez foi boa, são horas de fazer e comer as sopas de peixe (ótimas na ribeira!). Dias de convívio salutar. E assim passaram fins de semanas, meses e até anos. Parcerias que ao longo do  tempo mantinham uma amizade saudável.

Mas, curiosamente e de tantos amantes da pesca existentes, nenhum se empenhou em formar um Clube de Pesca, proporcionando aos associados momentos de lazer e pesca lúdica. Criando-o, havia condições  para competir entre eles e outros Clubes da Região, já existentes, como por exemplo: Moura, Reguengos e outros, projetando esta atividade em particular e o nome de Barrancos em geral, por outros lugares do mundo.

Porém, o tempo passa, porque não para, e eis que em 1985 um punhado de admiradores da pesca desportiva, já identificados no Contributo do Desporto, constituídos por: José Peres Valério, coordenador; José Venegas Gala; Diogo Assunção Fialho; João Luís Garcia Godinho e Joaquim Ferreira Ferraz, tiveram a iniciativa de criar o Clube Amadores de Pesca Desportiva de Barrancos, cujo emblema foi criado pelo consócio José Baleizão Rico, formando uma comissão administrativa pró-Clube. Formada esta, depararam-se com um obstáculo para legalizá-lo. Era necessária a existência de alguns valores monetários para se proceder ao respetivo registo dos estatutos. Para este fim o grupo arregaça as mangas e promove uns convívios piscatórios e  exploração do bar.

De salientar que este grupo não foi recebedor de qualquer ajuda monetária, à exceção das quotizações dos sócios. Apenas os transportes que a Câmara de Barrancos disponibilizou, bem como a instalação, reduzida, cedida pela Junta de Freguesia, foram as ajudas recebidas. Instalação esta que nada tinha a ver, com as atuais, mas era o que existia. De salientar, ainda, que a primeira secretária que houve foram duas caixas de cervejas (vazias) com um estrado em cima. Este era onde o mestre da música se colocava  para proceder aos ensaios de banda. Assim, levaram acabo dois anos até que, reunidas as condições necessárias, em 10 de Novembro de 1987, são legalizado os estatutos e criados os primeiros órgãos sociais constituídos por: ASSEMBLEIA GERAL: Presidente, Domingos Branquinho Mondragão; Vice-Presidente, António Manuel Martins Samarro;  Secretário, João Ramos Rodrigues. DIRECÇÃO: Presidente, José Peres Valério; Vice-Presidente, José Venegas Gala; Secretário, Diogo d’Assunção Fialho; Tesoureiro, João Luis Garcia Godinho e Vogal, Joaquim Ferreira Ferraz.  CONSELHO FISCAL: Presidente, Manuel Alves Alcario; Secretário, Francisco Manuel Escoval Raposo e Relator, Félix Porta Caçador. Nesta data já possuía algumas dezenas de sócios.  

Legalizado os Estatutos e a tomada de posse dos órgãos sociais,  a direção dá início a uma nova etapa e começa a contatar outros clubes da região e extra região  convidando-os a participarem nos concursos organizados pelo clube, obtendo uma aderência singular. Provas houve na barragem das mercês que ficaram com a lotação esgotada (156 concorrentes) e recusaram-se mais inscrições. Os prémios atribuídos aos melhores classificados eram: taças, troféus e outros que com a boa vontade dos empresários e outros amigos que se dignavam ofertar. Hoje os prémios são de forma diferente.

Entretanto outros órgãos sociais se seguiram e com esforços abnegados,  nomeadamente das direções, algumas, prejudicando muitas vezes a sua vida familiar em prol do Clube, têm conseguido perpetuar até aos dias de hoje, perfazendo 33 anos. Estas direções, umas mais que outras, criaram inovações fantásticas, desenvolvendo a atividade piscatória, transpondo o nome de Barrancos além fronteiras. Os associados, pescadores, começam a participar não só em eventos nacionais como também estrangeiros (Espanha) tornando-se assim, como é óbvio, pescadores internacionais de pesca à linha.

Concluindo e segundo informação da Federação Portuguesa de Pesca Desportiva, foi desde a década de 40 do século passado que a pesca desportiva de competição começou a ser praticada no país.

Aproveito esta curta narrativa para, na qualidade de um dos fundadores, deixar uma palavra de grande apreço, a todos os membros dos órgãos sociais em geral e direções em particular, que passaram por este Clube.

Bom Natal e Bom Ano a todos. Para os pescadores, em particular, um ano cheio de boas pescarias.
Barrancos, 12/12/20 
*Ass) José Peres Valério" 
Fotos de pesca/pescadores, arquivo pessoal de JPV