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segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Subsídios para a história de Barrancos - a Taberna da Tia Vitória (no Altossano)

Há muitos anos que ouvi esta "história" pela primeira vez. Várias outras vezes me foi contada ao longo da adolescência pelo meu avô materno, que dizia ser cliente habitual. Falava sobre o mesmo local, o mesmo sítio, as mesmas pessoas, mas acrescentando sempre mais algum pormenor. Nunca a valorizei. Aliás, como todas as crianças ou adolescentes, pouco "ligava" às histórias que nos vão contando ao longo do nosso crescimento. Até um dia, quando um "clic", uma conversa "parecida" ou a mesma "história" ouvida a outra pessoa, "despertam" a curiosidade e vem à memória tudo aquilo que nunca terá sido esquecido, estando apenas adormecido. Cabe neste introito, a história de um estabelecimento de bebidas, desaparecido há muito, tal como todos (ou quase todos) os seus clientes. 
Na memória perdeu-se o sítio ou local exato onde ficava e alguns pormenores foram "avivados" por conversas recentes, com amigos e conhecidos, novos e velhos que, tal como o escrivão destas linhas, foram rememorando factos, pessoas, e acontecimentos. Falamos duma taberna, mas não duma taberna qualquer.
A Taberna da "Tia Vitória" - nome da proprietária e taberneira, uma mulher de estatura média, "sempre curvada" - que existiu no Altossanohoje Largo de S. Sebastião na toponímia oficial de Barrancos, entre os anos 40 e finais da década de 50 do séc. XX. O estabelecimento era um afamado local de copeu e tapeu, muito frequentado por trabalhadores rurais, por contrabandistas e por quem gostava do jogo (cartas), com ambiente animado pela alegria e espontaneidade da castiça tabernêra
A taberna, ou melhor a "história" da taberna, é hoje recordada sobretudo por um triste acontecimento ali ocorrido, em data que não se consegue situar: o suicídio de um homem de alcunha Molina (ou Tonaca?). Consta que já estaria na taberna, algures, numa mesa onde escreveu uma carta. Depois, entre as portas, com uma faca na mão comprada um pouco antes numa mercearia "de passagem, grita - "assim se mata um homem!". Para espanto e horror dos presentes, corta-se o pescoço e cai ao chão degolado!
Momentos depois da confusão o corpo será levado para o meio do largo, numa escada de madeira servindo de maca improvisada. Os gritos e gestos prévios a este triste sucesso terão ficado na memória de quem assistiu, e na altura muitos clientes havia na taberna. O que se terá passado antes não se sabe, mas contava-se "entre dentes" que o Molina (ou Toneca), homem casado, mas separado de facto, porque divórcios não havia à data, ter-se-ia sentido abandonado por uma familiar da tabernêra, de quem se teria apaixonado. O sentimento de "abandono", de vergonha ou o "desprezo" de um amor "não correspondido", tê-lo-á levado a cometer o suicídio, que tinha premeditado: a escrita da carta (de despedida? ou de justificação?) e a compra da faca.
A taberna terá continuado aberta por mais alguns anos, nada restando na atualidade daquele estabelecimento, que funcionou onde hoje existe uma garagem em ruinas. A Tia Vitória, também conhecida pela alcunha de Gatinha, por ser irmã do Xico Gato, tinha um filho e duas filhas, que se terão fixado em Moura ou Setúbal, onde "fizeram família e onde ainda devem andar".
No Altossano, por onde passo com frequência, parece que ainda se ouvem os gritos de tão tresloucado acto. No chão, a calçada parece que também continua manchada de sangue.
Fotos1-2:  local onde esteve a taberna
(Foto1: Google maps, print, 18-10-2020; Foto2: Arquivo eB, 2014)