terça-feira, 20 de outubro de 2026

João Chamorro e os vinhos da Quinta do Carmo: entre a tradição e a revolução

Em Barrancos, onde João Chamorro nasceu, não há tradição vinícola. Mas foi lá que plantou as primeiras vinhas, num projeto partilhado com o pai. Hoje é diretor de enologia da Quinta do Carmo, em Estremoz, propriedade da Bacalhôa Vinhos, cargo que assumiu em 2024, depois de mais de duas décadas ligado à viticultura do grupo no Alentejo. 

«Eu e o meu pai fomos os primeiros a plantar vinhas lá em Barrancos», recorda João Chamorro, num final de manhã na Quinta do Carmo. A «aventura» barranquenha deu origem à marca Castelo de Noudar e prolongou-se entre 2004 e 2015. O projeto acabou por ser interrompido por problemas de saúde e pela distância a que obrigava — «são 100 quilómetros, não há pessoas, não há máquinas, era complicado manter… e não tinha dimensão» —, mas o enólogo não esconde alguma mágoa: «Hoje estou arrependido de termos terminado, mas não há volta a dar.» 

Foi em Évora, onde se formou em Engenharia Agrícola em 1993, que decidiu o seu rumo profissional. «Uma vez visitei a adega de Redondo, estava lá o engenheiro Jorge Novelo [diretor industrial] e eu pensei: olha, se calhar é isto que eu gostava de fazer», conta. A oportunidade surgiu em 1998, quando as Caves Aliança decidiram deixar de ser apenas uma empresa engarrafadora para passar a produzir a partir de vinhas próprias, comprando a Quinta da Terrugem, perto de Elvas, e a Quinta do Barranco, em Redondo. 

Foi ali que fez o trabalho de fim de curso, centrado sobre os níveis de produção das castas Castelão e Trincadeira, estudo que viria a confirmar aquilo que aplicaria mais tarde na Quinta do Carmo: «Se dermos alimento à planta, o vinho também vai ser melhor.» 

A poucos quilómetros de Estremoz, a Quinta do Carmo estende-se por mil hectares, dos quais 150 são vinha, na parte norte da Serra d’Ossa e no seu sopé, onde uma barragem garante o abastecimento de água. É ali que desde 2007 se concentra toda a produção da Bacalhôa Vinhos no Alentejo. João Chamorro descreve o espaço como «quase um domaine», termo usado em particular na Borgonha para definir uma propriedade vitivinícola onde o produtor cultiva as suas próprias uvas e vinifica o vinho. «Tinha todas as condições para fazermos o nosso quartel-general aqui.» 

João Chamorro assumiu a enologia da propriedade em 2024, depois de décadas ligado sobretudo à viticultura do grupo. «Fiz vinho durante dez anos e depois estive outros dez na vinha. Chegava a vindima, entregava as uvas e fica por aí.» Agora é responsável por todo o processo. A mudança de responsabilidade rompe, diz, com uma dinâmica antiga na empresa: «Sempre houve aqui uma guerra saudável entre a viticultura e a enologia (…) quando os vinhos corriam mal, a culpa era sempre da viticultura. A enologia nunca tem culpa.» Hoje, sublinha, «não tenho desculpa». 

Essa mudança trouxe também uma reorganização da equipa e a introdução de ferramentas digitais, como tablets nos tratores, GPS, registos informáticos que substituíram o papel por completo. «Este ano já vou ter gráficos e dashboards de tudo o que é trabalhos agrícolas», adianta. Mas a aposta central foi envolver na adega quem trabalha na vinha: «Consigo que as pessoas produzam as uvas durante o ano e depois vão ajudar a fazer o vinho, a desencubarem, vão acompanhar as várias etapas. Há um envolvimento da equipa em todo o processo produtivo.»

(...)

Uma reportagem do Alentejo Ilustrado, de 08/04/2026

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