quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Barrancos entre as prioridades da Cultura no Alentejo: "Uma marca simbólica humanitária", para Alberto Santos

Em exclusivo ao Alentrium.pt, o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, confirma que está a ser trabalhada a candidatura ligada ao antigo campo de refugiados. Noventa anos depois, o governante destaca o significado humanitário do acolhimento prestado pela comunidade alentejana.

A memória do acolhimento de refugiados da Guerra Civil de Espanha em Barrancos está no centro de uma candidatura à Marca do Património Europeu. Em declarações exclusivas ao Alentrium.pt, o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, identificou este processo como um dos exemplos do trabalho em curso na área do património, sublinhando o valor humanitário da proteção assegurada pela comunidade raiana há 90 anos.

O governante referiu que está a ser desenvolvido trabalho em torno da «marca europeia do património», sobretudo associado ao campo que recebeu refugiados espanhóis em 1936. Na sua intervenção, evocou o papel da «comunidade pequena de Barrancos» e daqueles que, no território, protegeram pessoas que fugiam da perseguição e da guerra.

«É uma marca simbólica humanitária que está neste momento a ser também preparada para ser apresentada», afirmou Alberto Santos.

As declarações confirmam o trabalho de preparação do processo, sem anteciparem uma decisão sobre a atribuição da distinção. O secretário de Estado não anunciou montantes de financiamento nem um calendário de submissão.

A candidatura tem como referência o antigo campo de refugiados da Herdade da Coitadinha, num projeto que envolve a Câmara Municipal de Barrancos e a EDIA, proprietária da herdade, com apoio da CCDR Alentejo. A apresentação pública do projeto integrou o programa comemorativo dos 90 anos, em setembro.

Em 1936, a Coitadinha e a Herdade das Russianas tornaram-se lugares de refúgio para pessoas provenientes da Extremadura e da Andaluzia. Homens, mulheres e crianças atravessaram a fronteira perante o avanço das forças sublevadas espanholas, encontrando no concelho alentejano proteção e auxílio. O projeto de investigação HELP situa a permanência nos dois campos improvisados entre 21 de setembro e 8 de outubro daquele ano.

A ajuda da população e a atuação de militares portugueses foram determinantes. Entre os protagonistas encontram-se o tenente António Augusto de Seixas, da Guarda Fiscal, que protegeu os refugiados das Russianas, e o tenente Eduardo Varela de Oliveira Soares, da GNR, associado à defesa dos refugiados junto à Coitadinha. A investigação de Dulce Simões documenta estas intervenções num contexto em que as solidariedades locais contrariaram orientações do poder central.

Os refugiados dos dois campos foram posteriormente transportados para Moura e seguiram de comboio para Lisboa. A viagem de regresso a território espanhol sob controlo republicano realizou-se no paquete Nyassa, que partiu da capital portuguesa em 10 de outubro de 1936, com destino a Tarragona.

Noventa anos depois, a preservação desta memória surge ligada à presença da política cultural fora dos grandes centros. Na entrevista ao Alentrium.pt, Alberto Santos recorreu precisamente à recente deslocação a Barrancos para explicar essa orientação.

«Não estamos apenas presentes nos grandes centros, como em Lisboa ou no Porto, mas estamos nos pequenos territórios», afirmou.

O secretário de Estado reconheceu que, na cultura e no património, «muito está por fazer» e defendeu que as visitas permitem acompanhar iniciativas locais, estimular o seu desenvolvimento e conhecer os obstáculos com que as comunidades se confrontam.

«Nos territórios há oportunidades e dificuldades e a nossa tarefa é transformar essas dificuldades em novas oportunidades», declarou, associando essa intervenção à identificação dos problemas e à procura de soluções para o património e para a atividade cultural.

A Marca do Património Europeu, atribuída no âmbito da União Europeia, valoriza lugares pelo seu significado na história e na cultura europeias, bem como pelo trabalho de divulgação e educação desenvolvido junto do público. O processo passa por uma seleção nacional e por uma avaliação europeia. Para Barrancos, a candidatura procura dar projeção a um episódio em que uma pequena comunidade alentejana participou na proteção de vidas ameaçadas pela guerra.

Augusta Serrano — Jornalista

Alberto Santos, 2º a contar da direita, no auditório do cineteatro de Barrancos, 
Fonte: eB, 29-09-2026

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