sábado, 19 de setembro de 2026

Barrancos recorda hoje, para não esquecer, os 90 anos do Campo de Refugiados da Coitadinha

90 anos depois do início da Guerra Civil, e do «holocausto espanhol», comemoramos a solidariedade fronteiriça, e recordamos um passado pejado de atrocidades e violações dos direitos humanos, cujo desconhecimento propicia a manutenção de sociedades intolerantes e ameaça o futuro das democracias ibéricas.

A 21 de Setembro de 1936, as povoações fronteiriças de Oliva de la Frontera e Jerez de los Caballeros (Badajoz) foram ocupadas pelos sublevados, e centenas de pessoas, fugidas da morte, concentraram-se na fronteira de Barrancos, junto às herdades da Coitadinha e das Russianas.

Os acontecimentos impuseram uma nova inteligibilidade, traduzida em estratégias de acolhimento e actos de solidariedade, tanto por parte da população de Barrancos como das autoridades militares que partilhavam a experiência colectiva da barbárie.

Esta zona fronteiriça era vigiada por militares do exército português, da Guarda Nacional Republicana (GNR) e Guarda Fiscal (GF), coordenados pelo tenente António Augusto de Seixas (GF), responsável pelo comando técnico das operações, e por uma brigada móvel da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE). As ordens de Salazar, de interdição, detenção e entrega na fronteira «dos rojos», aos verdugos de Franco, pareciam claras. Mas, perante uma multidão desesperada, e conhecedores da matança de Badajoz e da violência que grassava no outro lado da fronteira, os oficiais portugueses interpretaram as ordens em função dos seus princípios éticos.
O tenente Jorge Serrão da Veiga, do Regimento de Infantaria 17 de Beja, assumiu a responsabilidade da entrada dos refugiados na herdade da Coitadinha, até ser decidido oficialmente o seu destino.
O tenente Eduardo Varela de Oliveira Soares, da GNR, recusou entregar os refugiados ao capitão Varela Paz, e impediu a ofensiva militar dos falangistas sobre as pessoas concentradas na herdade da Coitadinha.

O tenente António Augusto de Seixas, da GF, responsável pelo comando das operações na fronteira de Barrancos, acolheu e protegeu centenas de pessoas na herdade das Russianas. 

A 23 de Setembro, o comandante da 4ª Região Militar deslocou-se a Barrancos para ordenar as condições de internamento, determinadas por Salazar, dos refugiados da Coitadinha. Neste contexto, o tenente Seixas tentou oficializar a presença dos refugiados das Russianas junto do Director da PVDE, mas o pedido foi recusado. Perante a recusa, encetou contactos com «as novas autoridades espanholas» para garantir o regresso às suas localidades, «com a palavra de honra de que lhes não fariam mal». A «palavra de honra» nunca chegou, e Seixas protegeu a vida de centenas de pessoas à revelia de Salazar, que o penalizou.

A 24 de Setembro, o director adjunto da PVDE deslocou-se a Barrancos para conferenciar com elementos da polícia de Badajoz, que se tinham deslocado à vila a seu pedido. Mas as ordens superiores contrariaram os procedimentos habituais de entrega na fronteira.

A exceção à regra deveu-se a um conjunto de circunstâncias, entre elas: as pressões diplomáticas decorrentes da adesão de Portugal, em Setembro, ao Comité de Não Intervenção de Londres e à Comissão de Refugiados da Sociedade das Nações; as influências pessoais junto de Salazar de figuras do regime com ligações às elites de Barrancos; as pressões da Cruz Vermelha Internacional e da imprensa estrangeira. Neste contexto, desfavorável, Salazar encontrou habilmente uma «solução honrosa» para Portugal, ao negociar com o governo republicano o repatriamento para Tarragona (Catalunha) dos militares e civis detidos e concentrados em diversos pontos do país.

Evoco aqui algumas das famílias de refugiados de Barrancos que chegaram a Tarragona, e tive o privilégio de conhecer. O franquismo negou-lhes o direito à cidadania e condenou-as à humilhação, à marginalização social e ao exilio. Mas a coragem, que orientou as suas vidas de resistentes antifascistas, incutiu nos seus descendentes a certeza de que o Fascismo Não Passará!

A família de Rafael Caraballo, de Jerez de los Caballeros.
A família de Manuel Méndez García, de Oliva de la Frontera.
A família de Fermín Velázquez, de Oliva de la Frontera.
A família de Antonio Martin Matamoros Pardo, de Oliva de la Frontera.
A família de Manuela Martin, de Vilanueva del Fresno.
A família de Pablo Linares, de Valencia del Monbuey .
A família de José Silva Rodríguez, de Barcarrota.
A família de Purificación Almarza Chaves, de Badajoz.
(Texto: Dulce Simões, facebook, 16/09/26)

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