Em exclusivo ao Alentrium.pt, o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, confirma que está a ser trabalhada a candidatura ligada ao antigo campo de refugiados. Noventa anos depois, o governante destaca o significado humanitário do acolhimento prestado pela comunidade alentejana.
A memória do
acolhimento de refugiados da Guerra Civil de Espanha em Barrancos está no
centro de uma candidatura à Marca do Património Europeu. Em declarações
exclusivas ao Alentrium.pt, o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos,
identificou este processo como um dos exemplos do trabalho em curso na área do
património, sublinhando o valor humanitário da proteção assegurada pela
comunidade raiana há 90 anos.
O governante
referiu que está a ser desenvolvido trabalho em torno da «marca europeia do património»,
sobretudo associado ao campo que recebeu refugiados espanhóis em 1936. Na sua
intervenção, evocou o papel da «comunidade pequena de Barrancos» e daqueles
que, no território, protegeram pessoas que fugiam da perseguição e da guerra.
«É uma marca
simbólica humanitária que está neste momento a ser também preparada para ser
apresentada», afirmou Alberto Santos.
As declarações
confirmam o trabalho de preparação do processo, sem anteciparem uma decisão
sobre a atribuição da distinção. O secretário de Estado não anunciou montantes
de financiamento nem um calendário de submissão.
A candidatura tem
como referência o antigo campo de refugiados da Herdade
da Coitadinha, num projeto que envolve a Câmara Municipal de Barrancos
e a EDIA, proprietária da herdade, com apoio da CCDR Alentejo. A apresentação
pública do projeto integrou o programa comemorativo dos 90 anos, em setembro.
Em 1936, a
Coitadinha e a Herdade das Russianas tornaram-se lugares de refúgio para
pessoas provenientes da Extremadura e da Andaluzia. Homens, mulheres e crianças
atravessaram a fronteira perante o avanço das forças sublevadas espanholas,
encontrando no concelho alentejano proteção e auxílio. O projeto de
investigação HELP situa a permanência nos dois campos improvisados entre 21 de setembro
e 8 de outubro daquele ano.
A ajuda da
população e a atuação de militares portugueses foram determinantes. Entre os
protagonistas encontram-se o tenente António Augusto de Seixas, da Guarda
Fiscal, que protegeu os refugiados das Russianas, e o tenente Eduardo Varela de
Oliveira Soares, da GNR, associado à defesa dos refugiados junto à Coitadinha.
A investigação de Dulce Simões documenta estas intervenções num contexto em que
as solidariedades locais contrariaram orientações do poder central.
Os refugiados dos
dois campos foram posteriormente transportados para Moura e seguiram de comboio
para Lisboa. A viagem de regresso a território espanhol sob controlo
republicano realizou-se no paquete Nyassa, que partiu da capital portuguesa em
10 de outubro de 1936, com destino a Tarragona.
Noventa anos
depois, a preservação desta memória surge ligada à presença da política
cultural fora dos grandes centros. Na entrevista ao Alentrium.pt, Alberto
Santos recorreu precisamente à recente deslocação a Barrancos para explicar
essa orientação.
«Não estamos
apenas presentes nos grandes centros, como em Lisboa ou no Porto, mas estamos
nos pequenos territórios», afirmou.
O secretário de
Estado reconheceu que, na cultura e no património, «muito está por fazer» e
defendeu que as visitas permitem acompanhar iniciativas locais, estimular o seu
desenvolvimento e conhecer os obstáculos com que as comunidades se confrontam.
«Nos territórios
há oportunidades e dificuldades e a nossa tarefa é transformar essas
dificuldades em novas oportunidades», declarou, associando essa intervenção à
identificação dos problemas e à procura de soluções para o património e para a
atividade cultural.
A Marca do
Património Europeu, atribuída no âmbito da União Europeia, valoriza lugares
pelo seu significado na história e na cultura europeias, bem como pelo trabalho
de divulgação e educação desenvolvido junto do público. O processo passa por
uma seleção nacional e por uma avaliação europeia. Para Barrancos, a
candidatura procura dar projeção a um episódio em que uma pequena comunidade
alentejana participou na proteção de vidas ameaçadas pela guerra.
Augusta Serrano — Jornalista





















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