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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

A recolha do lixo em Barrancos - um pouco de história do sistema local porta-a-porta

De acordo com a Resialentejo, a vila de Barrancos fica com 100% do território abrangido pelo sistema payt de recolha de lixo, a partir de 2 de janeiro! Entre outras novidades, que iremos conhecer durante os próximos dias, ficamos sem contentores coletivos. Nas restantes localidades onde o sistema também será implementado, Ourique, Serpa, Mértola ou Moura, p.ex, a recolha payt abrange pequenas áreas (as chamadas zonas históricas).
A dois dias do começo de um "novo" modelo, o Barrancos 100% payt, talvez seja de interesse recordar um pouco da história do "sistema de recolha do lixo porta-a-porta" em Barrancos:
A vila de Barrancos tem um serviço de recolha de lixo porta-a-porta desde 1974/75. Este serviço, ou sistema, como lhe queiramos chamar, foi criado no final do "mandato" da Comissão Administrativa  da Câmara Municipal (1974/1976), presidida pelo Sr. José Domingos Escoval, tendo sido depois melhorado pela primeira CMB eleita, presidida pelo Sr. Carlos Durão (1977/1982) - ver aqui e aqui. 
Naqueles primeiros anos (1975/1981), a recolha diária do lixo era feita num dumperprimeiro, e num trator anos depois, conduzidos pelo saudoso Tio Agostinho (motorista). O primeiro "carro do lixo", adaptado, só apareceria em meados da década de 1980. O lixo, a "granel", depositado em latas (de tinta) ou outros recipientes, porque não havia ou não se usavam sacos de plásticos, era "recolhido" pelo Manuel Antelo (Nekita), o primeiro cantoneiro de limpeza da CMB. A esta equipa, que esteve junta cerca de três décadas, juntavam-se ocasionalmente, um ou outro elemento, entre os quais os Xicos (o Ramos e o Basílio, o primeiro recentemente desaparecido).
As lixeiras, que dantes existiam nos chamados "arrabaldes" da Vila - recordo a zona do Pinhão cheia de lixo e de estrumeiras - foram desaparecendo a pouco e pouco. Foi um processo que demorou alguns anos, mas foi conseguido e, em finais dos anos 80, princípios da década de 90 (séc. XX), as lixeiras tinham desaparecido praticamente todas.
O lixo recolhido, era diariamente transportado e depositado na antiga mina de Minancos, encerrada e selada aquando da abertura da Estação de Transferência de Resíduos (ETA da Eira de Carrasco), em 2003.
Os contentores coletivos, que hoje estão espalhados em vários locais da vila, mas devia haver em mais, terão surgido em meados da década de 1990. Primeiro, na zona do bairro, e depois noutros locais. Os contentores para a reciclagem (papel, vidro e plásticos), são mais recentes - primeira década deste século.
Por fim, salientar que o serviço de recolha de lixo de Barrancos é assegurado pela Junta de Freguesia, por delegação da CMB, desde 1995.
contentores na zona do bairro dos Espanhóis
contentor no Altossano
contentores da rua da Igreja
(Fotos: Arquivo eB, 2019)

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Subsídios para a história de Barrancos II - Recuando no tempo

"Nesta pequena resenha que vou traçar vou recuar no tempo! Se bem que não podemos recuar porque esse passa sem nos apercebermos mas no entanto fica a memória de todos: velhos, meia-idade, novos. Como dizia o autor: o tempo passa e o homem olha para ele reconstruindo-o com a memória.
Tomando o pensamento deste autor verificamos que os velhos, velhinhos já, com uma vivência antes da década 50 e outros até fins da década de 60 princípio de 70 do século passado, têm uma história da vida que olhando-a para a dos dias de hoje é uma diferença abismal. Era trabalho casa/casa trabalho. Sol a Sol. Mal alimentados. Subnutridos, mal vestidos, sem quaisquer agasalhos para suportar as invernias. Aguentando, os trabalhadores rurais, todas as intempéries: lavrando, semeando, mondando, ceifando, debulhando; pedreiros e outros, etc.. Muitas vezes tapando-se com uma saca de sarapilheira por ausência de fatos de água porque não havia posse para o comprar, em dias de chuva, encharcada em água pesavam o dobro ou o triplo do peso dela, sem olhar ao peso que tinham encima, lutavam por todos os meios para ganhar o sustento do dia-a-dia, quando havia, para alimentar os seus filhos e restante família. Quantas vezes cheios de raiva e com uma debilidade extrema sem ter uma saída para ganhar meios de sustentação para o agregado familiar!
Dias e dias, semanas e semanas sem trabalho. Sem ganhar um tostão. Desemprego não havia. Regalias sociais era uma palavra desconhecida.
Cada dia era igual ao dia anterior e ao dia de amanhã e cada ano ao antecedente e ao subsequente. Período este que trouxe muito constrangimento.
Chegado ao fim da década de 50 princípio de 60, não havendo trabalho que lhes permitissem sonhar com melhores dias verificou-se um grande êxodo com os jovens muitos deles acompanhando os familiares emigraram para o estrangeiro, Lisboa e periferia e outras paragens para poderem sobreviver e simultaneamente saírem do obscurantismo que se vivia.
Não foi fácil para esta gente. Gente que queriam trabalho e não tinham. Quantas vezes para ganhar o sustento tinham de se deslocar aos trabalhos das estradas como por exemplo em S. Martinho das Amoreiras, Santana da Serra e por outras paragens do país, porque em Barrancos não havia, através do Fundo de Desemprego, por via da Câmara Municipal de Barrancos, recebendo uma jorna diária de 20 escudos que, deduzidos 1$40 (um escudo e quarenta centavos), para o Fundo de Desemprego, usufruíam o valor líquido de 18$60 (dezoito escudos e sessenta centavos). Os transportes para estas duas localidades eram feitos numa camionete de caixa aberta como se fossem mercadorias que, em dias de chuva, eram tapados com um oleado como se de mera mercadoria se tratasse. Bancos na camionete não existiam. O Oleado não tinha qualquer estrutura de suporte. Era posto diretamente encima dos corpos num percurso de aproximadamente 190 Km.
Raízes de sofrimento que certamente também passaram pelos nossos antepassados.
Tempos de Infortúnio!
Uma vida cheia de canseiras! Procuravam vender uma carga de estevas ou raízes de azinheiras que conseguiam através dos mais abastados que depois de lhes terem tirado a lenha e ficado o tronco rente ao chão, iam com cunhas e marra destruir o tronco e as raízes para fazer a carga de lenha. Deitavam mãos a tudo que pudessem fazer uns centavos para sustento familiar. Incluso, alguns, a varrer as ruas para juntar o estrume que os animais defecavam na transição pelas ruas e juntarem-no numa estrumeira, durante o ano, na periferia da vila, para mais tarde, no tempo da fertilização das terras venderem gorpelhas de estrumes cujo valor era de: muar 3$50 (três escudos e cinquenta centavos) e asinino 2$50 (dois escudos e cinquenta centavos) para poderem angariar mais alguns tostões para sustento do agregado familiar. Tempos Difíceis! De salientar que com este desempenho era uma forma de trazer as ruas limpas sem que o erário público tivesse que gastar uns tostões com a limpeza das ruas.
Em síntese: Tempos de escravidão!
Diversões apenas usufruíam em alguns dias festivos para poderem expandir a sua alegria que no momento lhes iam na alma. O restante tempo do ano era trabalho, só trabalho e canseiras.
Entretanto com o advento do 25 de Abril de 1974 uma grande lufada de esperança se abriu na nossa terra bem como em todo o país.
Quando tomaram conhecimento que de uma parede saía dinheiro nem queriam acreditar, como é óbvio. Fruto da tecnologia que atravessamos.
O Tempo entretanto passou, que não para, e as camadas mais jovens entram numa fase de desenvolvimento e tecnologia mais avançada nomeadamente a informática,  permitindo-lhes novos rumos.
Todavia e apesar de todo o desenvolvimento verificado, na nossa terra verifica-se, nos dias de hoje, uma desertificação paulatinamente com a emigração das camadas jovens a procura de trabalho que em parte, faz lembrar os tempos citados quando se cotejam.
Quem, gente daquele tempo,  não se recorda de todos os trambolhões que passaram!? Agruras do tempo, ou da vida!!!
Barrancos, 26 de Setembro de 2019 - ass) José Peres Valério"
Rua da Igreja, anos 1980
(Foto: s/a)